Copagril
Elio Migliorança

MEDALHA NO PEITO

Na semana em que debatemos o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio, resolvi mostrar como a inversão de valores vai comprometendo nosso futuro. Machado de Assis é um ícone admirado nacionalmente pelas obras e exemplo de superação. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um operário mestiço, pobre, perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta, saúde frágil, epiléptico e gago, tinha tudo para dar errado. Mas deu certo. E põe certo nisso. Considerado um dos mais importantes escritores brasileiros, autor de contos, romances, poesias e peças teatrais, é um dos mais importantes imortais da cultura nacional. Fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL), deve ter se virado no túmulo em 2011. Foi quando a mais alta entidade cultural brasileira concedeu a medalha Machado de Assis ao jogador Ronaldinho Gaúcho.
Num vídeo divulgado na internet encontrei a análise que mais combina com minha opinião sobre o que significou aquela concessão. A análise foi feita pelo comentarista do SBT/SC, jornalista Luiz Carlos Prates, que transcrevo a seguir.
“O Brasil precisa encontrar o caminho da meritocracia, isto é, dar a cada um segundo suas obras. Fez um trabalho bem feito, aqui está o reconhecimento, fez um trabalho malfeito, aqui está a admoestação. Não faz sentido que a ABL acabe de outorgar a medalha Machado de Assis para Ronaldinho Gaúcho. Puxa, isso é desencorajar escritores, pensadores, gente que gosta da língua portuguesa, que escreve, que pensa, que melhora. Se encontrasse o Ronaldinho Gaúcho, eu perguntaria: me cite dois livros que você tenha lido?
Eu não estou sendo desdenhoso. Eu costumo dizer que Ronaldinho Gaúcho é um peladeiro de pátio de colégio. Disseram que a outorga se deve aos relevantes serviços prestados à Seleção Brasileira, a pátria de chuteiras, como dizia Nelson Rodrigues. Mas o que é que ele fez pelo Brasil?
Professores, cientistas, assistentes sociais, gente maravilhosa que trabalha anonimamente, que muda os rumos da sociedade, pessoas que vão morrer anônimas, pobres, sem nenhum reconhecimento não são premiados. Mas ele foi agraciado com a medalha da mais alta distinção da inteligência brasileira. Isso me desconsola, me tira completamente a esperança de um Brasil melhor. Enquanto nós continuarmos a dar medalhas para quem não merece em todas as instâncias, nós não vamos achar o caminho, e nós precisamos achar o caminho. Nós precisamos elevar, distinguir, premiar e honrar os bons alunos em sala de aula, os bons professores dentro das escolas e assim em todas as instâncias. Nós precisamos descobrir neste garimpo da vida e das relações humanas os verdadeiros artífices de uma sociedade melhor. Agora a ABL se reunir na pompa do fardão para dar esta medalha, eu tenho vontade de rasgar todos os meus livros e parar de estudar verbos irregulares.
Eu sou um baita de um boca aberta e esperto é o Ronaldinho Gaúcho que no condomínio dele não respeita ninguém, é samba, é pagode a noite inteira. Mas sabe por quê? Porque falta homem no Brasil. Homem que ponha o pé na porta e diga: cala a boca, baixa o som e respeita, ou então me diga um livro que tu tenha lido”

TOPO