Copagril
Elio Migliorança

MENINOS, EU VI

Muitos falaram, escreveram e criticaram a gastança com as Copas. Mas quando os ingressos foram colocados à venda, logo esgotaram. A mais chocante forma de protesto seria o estádio vazio. Mas não foi assim. Eu fiz a minha parte. Dei o troco na poderosa Rede Globo, que investiu milhões para transmitir os jogos, nos patrocinadores que gastaram horrores para veicular sua propaganda e na corrupção vista nas obras dos estádios. Para ser coerente com o que já escrevi sobre o tema, optei por não assistir aos jogos.
Enquanto o povo torcia no estádio, eu torcia pelos milhares que saíram às ruas para mudar o Brasil. Era como o despertar de um sonho. Aquilo estava acontecendo no Brasil. Mas foi durante o jogo Brasil e Uruguai que dei um salto e pude gritar: meninos, eu vi. Inacreditável, mas era verdade. Vi o Congresso Nacional trabalhando. E a rapidez nas votações, só vista nos projetos de interesse dos congressistas, tipo aumento de salário e das verbas de ressarcimento, criação de cargos de confiança normalmente preenchidos com parentes e outros apadrinhados, esta velocidade estava sendo aplicada na aprovação de projetos de interesse do povo. A toque de caixa foi sepultada a famosa PEC 37, merecidamente batizada de PEC da Impunidade. Também foi aprovado um projeto de lei tornando a corrupção um crime hediondo, projeto que durante anos estava “esquecido” nas gavetas do relator. A Comissão de Constituição e Justiça, que sempre andou a passos de tartaruga, agilizou-se e aprovou o fim do voto secreto quando se trata da cassação do mandato de parlamentar. Aquela estratégia que era comum dizer que votaria pela cassação, mas nos bastidores negociava e votava contra. O projeto agora vai ao plenário e com o povo atento deve ser aprovado. Aprovado também o projeto que destina 75% dos recursos dos royalties do petróleo do pré-sal para a educação e 25% para a saúde. Isso quando este petróleo chegar à superfície. Até os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que dependem só do voto do presidente da República para chegar lá, vendo a barba do vizinho pegar fogo, resolveram colocar a sua na água. Rápido, o STF expediu ordem de prisão contra o deputado Natan Donadon, a primeira contra um deputado no exercício do mandato desde a Constituição de 1988. Pasmem, o crime já ocorreu há 18 anos e só agora ele foi preso.
O barulho das ruas conseguiu agilizar as instituições que deveriam funcionar sempre nesta velocidade. E logo em seguida a Presidência da Câmara abriu processo de cassação contra o dito cujo, sem aquele “nhe nhe nhem” que se viu na condenação dos réus do mensalão, discutindo se o STF tem esse poder ou se ele cabe somente à Câmara. Ninguém questionou. Olharam pela janela e diante da multidão enfurecida, os detalhes ficaram em segundo plano. Até a presidente Dilma, com medo de ser vaiada de novo, estava com o ministério reunido para debater a crise e estudar um plano de ação. O jogo final, como era domingo e todos estavam de folga, dividi meu tempo assistindo o jogo e escrevendo este texto. E agora que somos campeões, queremos políticos “padrão Fifa”. O título deste artigo foi tirado do poema I Juca Pirama, de Gonçalves Dias.

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