Tarcísio Vanderlinde

Messiânicos da nova aliança: o reaparecimento

Calcula-se que ao início da segunda década do século XXI eles já eram 300 mil em todo o mundo. Algumas projeções mais otimistas afirmam que podem ter passado de um milhão. Acredita-se que atualmente cerca de 30 mil judeus messiânicos vivam em Israel distribuídos em aproximadamente 300 congregações. Jafa, Netanya, Tiberíades, K’far Saba e Jerusalém são as cidades que acomodam número mais expressivo de messiânicos. Eles acreditam no B’rit Hadashah, livro da Nova Aliança, conhecido entre cristãos como o Novo Testamento. Aceitam Yeshua (Jesus) como o Messias prometido no Antigo Testamento, o Tanakh.

Muitas denominações cristãs ainda não reconhecem este grupo como diferente dos demais judeus. Costuma-se dizer que os messiânicos de todo o mundo vivem em dois “mundos” simultaneamente, tendo dificuldades de aceitação tanto pelas comunidades judaicas quanto das cristãs. Por outro lado, as comunidades messiânicas, tal como as cristãs, também divergem em determinados assuntos teológicos. Não obstante, existe diálogo no que concerne a questões fundamentais de fé.

Os cultos costumam ser celebrados em hebraico com frequente tradução para o russo, inglês, espanhol além de outros idiomas, inclusive o português. Nas últimas décadas os judeus migraram de vários países do mundo para Israel carregando os idiomas e outros aspectos culturais dos locais de onde saíram. Com amigos, aproveitei a estadia em Jerusalém para visitar uma igreja messiânica. Alguns dias depois, Meno Kalisher, pastor daquela igreja, compartilhou uma mensagem enquanto navegávamos pelo mar da Galileia.

Outro aspecto pouco conhecido dessas comunidades é saber que em muitos lugares judeus messiânicos e cristãos árabes palestinos podem ser flagrados num mesmo culto. Evidentemente, tal aproximação pode ser vista com reservas por segmentos majoritários da sociedade onde as comunidades estão estabelecidas. A ideia de um judeu se tornar crente em Jesus como Messias e depois ainda orar com fiéis palestinos é ainda impensável para a maioria dos judeus hoje.

O assunto sobre os judeus messiânicos da Nova Aliança costuma passar um pouco escondido da mídia normalmente preocupada com outros temas quando o assunto é Israel. O escritor R. T. Kendall observa que após o Holocausto ocorrido durante a 2ª Guerra Mundial, algumas questões parece que ficariam irremediavelmente irreconciliáveis. Havia um consenso de que o povo judeu não esqueceria tão fácil a tragédia.

Algo que, às vezes, pode nos pegar de surpresa é constatar que na aurora do cristianismo havia um só tipo de comunidade cristã, inicialmente formada por judeus na qual progressivamente foram se agregando os gentios. Estudioso da questão, o teólogo Joahannes Fichtenbauer, autor do livro “O Mistério da Oliveira”, observa que por interpretações teológicas questionáveis, ou mal-entendidas, a igreja que passava a ser predominantemente de gentios foi retirando do culto todos os elementos judaicos, inventando uma celebração diferente. O resultado foi que por volta de 250 d.C. quase não havia mais congregações messiânicas fora da Judeia.

Desaparecidas no alvorecer do cristianismo, as comunidades messiânicas começaram a reaparecer no século XIX paralelamente ao movimento que culminou com a criação do Estado de Israel em 1948.

 

O autor é professor da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

 

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