Elio Migliorança

MISTURA DE SENTIMENTOS

Enquanto no Brasil correm soltas a corrupção e as artimanhas dos poderes constituídos para melar as investigações e punições na Operação Lava Jato, que tenta chegar ao topo alcançando os chefões da corrupção no Brasil, a semana que passou foi para mim uma semana atípica, em que a caótica política estadual e a putrefata situação política e administrativa nacional ficaram em segundo plano. Estive focado num projeto de viagem, decidido há nove anos e a partir de então planejado cuidadosamente, e marcado para acontecer a partir do próximo dia 30.

Nascido em 2006, este projeto nos levará para o Canadá e ao Alaska, Estado americano na divisa com o Polo Norte. A viagem tem tudo para dar certo porque foi planejada cuidadosamente conforme a capacidade financeira dos participantes, planejamento este que falta aos governantes que fazem tudo no improviso e quando lhes faltam recursos, escolhem assaltar o bolso do contribuinte aumentando impostos. E neste quesito, governo estadual e federal são farinha do mesmo saco, incompetentes, manipuladores da opinião pública e irresponsáveis na gestão dos bens públicos. Por ter sido acalentado durante nove anos, este projeto de viagem criou um estado de ansiedade natural pela possibilidade de conhecer outros povos, seus costumes, cultura, produção, comidas típicas e seus valores. Conhecer também a organização política, econômica e social, bem como o funcionamento dos poderes constituídos. Enquanto organizava tudo, revisando documentos, roteiros, passagens, regulamentação das empresas aéreas sobre bagagens e conexões, fui surpreendido por um telefonema inesperado, informando que minha mãe havia falecido. Dona Ângela tinha 91 anos e oito meses, nesta idade é natural que a expectativa de vida não seja muito longa considerando a média nacional, mas a gente gostaria que mãe não morresse nunca. Infelizmente a realidade não é assim. As mães morrem, sim, e acaba ficando aquele vazio inexplicável, como se um pedaço de nós tivesse sido arrancado e levado também à sepultura. É neste momento que o filme da vida passa diante dos nossos olhos, avaliando as escolhas que fizemos e o que realmente valeu a pena. Minha mãe não tinha o domínio das letras, não teve a oportunidade de estudar, pois quando criança e adolescente no interior de Antonio Prado (RS) escola era luxo reservado para poucos e a lida na roça exigia das crianças ajudar em todos os trabalhos, não sobrando tempo para o aprendizado. Mas os valores familiares fundamentados na moral e ética eram aprendidos e vivenciados por toda a vida. Fé e espiritualidade caminhavam juntas. Foi isso que nós aprendemos com nossa mãe. Mulher de fé inabalável, encontrava em Deus o consolo para as dificuldades e enfrentou com garra o desafio de criar oito filhos, e ainda trabalhar na lavoura e fazer todo o serviço doméstico. Embora a idade avançada fosse o indicador de que a partida estava próxima, a confirmação da partida da mãe afetou a todos. Ficou o exemplo, ficaram as lembranças, ficaram as palavras de estímulo e consolo, ficou a lição de fé e o testemunho de vida.

Filhos e filhas, valorizem pai e mãe enquanto os tendes, pois dias virão em que eles lhes serão tirados e não haverá mais oportunidade para pedir perdão. Flores no túmulo chegam tarde demais.

 

* O autor é professor em Nova Santa Rosa

 

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