Silvana Nardello Nasihgil

Nada no mundo supre o contato humano

Muitas vezes, vamos descarregando emoções e sentimentos e esquecemos que o outro vai lê-los e interpretá-los e quando nos damos conta não dá mais para apagar.

Tem cada vergonha que a gente passa!

Casa do Eletricista – Clorador Agosto

O imediatismo faz isso e a gente precisa começar a pensar antes de encher os outros com as nossas demandas. Fazer cobranças, contar segredos, fazer pedidos, fofocas, descarregar tristezas e sofrimentos, falando de amor, beijando, acariciando, vivendo intimidades… e assim vamos costurando a vida sem permitir remendos.

A facilidade de ter o outro na ponta dos dedos nos coloca em uma situação confortável e o fato de não estarmos vendo a pessoa facilita ainda mais essa interação.

Canso de ouvir pessoas contarem que até casamentos são desfeitos pelo WhatsApp, namoros, relações de emprego, amizade, como também se namora, transa, beija e se permite todo tipo de intimidades. Assim como tudo pode começar, tudo tem o poder de terminar em simples palavras, em que o outro, muitas vezes, não tem o direito de expor a sua opinião, de se defender e de falar como se sente.

Vivemos o imediatismo de um jeito perverso. Tudo passou a ser aquilo que favorece, em que se passa a ter um poder sobre si e os outros que não é legítimo. Trocamos o olho no olho pelo tela na tela, e isso nos enche de coragem para dizer muito do que a presença física inibiria, e se vai “carimbando” a vida dos outros com muito daquilo que sequer processamos.

Infelizmente muitas pessoas já se comunicam pelas redes sociais dentro da própria casa, o que vai reduzindo o contato e esvaindo o amor. Os abraços deixam de fazer sentido e o “eu amo você” vem através de um emoticon de coração.

Estamos perdendo a essência humana quando perdemos o medo de falar de nós, de olhar nos olhos, de reclamar, cobrar, xingar, de falar dos nossos desejos e sonhos, do amor que sentimos, das nossas faltas e de nós como um todo, então, nos entregamos à falta de cuidados com o sentimento alheio, pois o mundo virtual é garantida de coragem vinda através de palavras escritas.

Perdemos o melhor também quando os sentimentos são digitados e se faz necessário um imaginário extra para compor a cena de abraço, beijo, carinho, colo e aconchego.

Perdemos o melhor de nós quando passamos a não mais sentir falta da presença física, do toque, olhar, cumplicidade, os gestos, o abraço e o prazer de partilhar a vida de forma real. Então começamos a virar um instrumento da cibernética e nesse processo muitas dores começam a se instalar em nós.

Somos um organismo vivo e não temos como nos suprir de sentimentos quando delegamos a uma máquina o poder de cuidar do nosso emocional.

Para não precisar mais apagar recados, precisamos rever o nosso modo de viver, como estamos conduzindo as relações, porque nada no mundo será capaz de suprir o contato humano, a partir do qual a palavra pode ser expressada e o amor sentido em sua plenitude.

 

Silvana Nardello Nasihgil é psicóloga clínica com formação em terapia de casal e familiar (CRP – 08/21393)

silnn.adv@gmail.com

 

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