Editorial

Não há palavras, só dor

 

Palavras. Difícil é encontrar palavras para um dos mais tristes episódios na história recente deste país. A morte de oito inocentes, assassinados a esmo, a sangue frio e com requintes de extrema crueldade por dois jovens, abalou o Brasil. De Norte a Sul, o luto se agigantou em poucos minutos, à medida em que a notícia ganhava a rede e era esmiuçada pelos veículos de comunicação. No começo ninguém acreditava que aquilo realmente estava acontecendo. Parecia um pesadelo daqueles. Mas a realidade logo mostrava amargamente a todos que aquele cenário brutal era mesmo verídico, fruto de um ataque covarde a jovens estudantes e trabalhadores brasileiros.

As cenas captadas por câmeras de segurança chocam pela imensa brutalidade e frieza dos dois assassinos. Não há como não ficar pasmo ou indiferente à tamanha crueldade e malvadeza. Fizeram o mal, sem olhar a quem.

Mais que tentar entender os motivos da barbárie, mais que elucidar as circunstâncias, mais que encontrar culpados, é preciso tentar compreender o que se passava na cabeça daqueles dois indivíduos que o editor deste jornal tem dificuldade de adjetivar. Não são apenas criminosos, isso é verdade. Quais os motivos que levam uma pessoa a tirar a vida de outras por, em tese, puro prazer e, em seguida, tirar sua própria vida? Não há justificativas ou respostas, por mais palavras que possam existir nos mais diferentes dicionários, para essa pergunta.

Mais uma vez, as mídias sociais fizeram seu papel com maestria e começaram a encontrar razões. Todo mundo, com suas versões, regurgitando palavras que não servem para nada a não ser tumultuar a situação, inflamar, brigar. Há de se lembrar também das boas palavras, de carinho e consolo, que inundaram a internet de solidariedade e compaixão. Na rede também há gente sensata e do bem, pode crer.

Os gritos desesperadores que estão entranhados na cabeça de cada um que acompanhou o infortúnio são os pedidos de socorro daqueles que conseguiram escapar das mãos da dupla autora do massacre. Palavras, assustadoras palavras. Quais são as palavras para consolar uma mãe, um pai que perdeu seu filho em plena juventude? Como explicar a morte de uma mãe, de um pai, daquela maneira tão hostil? Como encontrar palavras? Não há palavras, só dor.

Duas pessoas calaram um país inteiro. Deixaram a nação sem voz, ao som do lamento e da raiva, produziram odiosos sentimentos e deixaram uma pergunta: com que convicções os jovens estão crescendo? As certas? As erradas? As insanas? Essas respostas precisam ser encontradas para que novas cenas de horror não mais aconteçam no país que até pouco tempo atrás não imaginava passar por isso. Não no Brasil. Mas aconteceu, está acontecendo.

O episódio da Escola Raul Brasil, em Suzano, ficará escrito nas negras páginas da história da educação brasileira. São palavras que o Brasil não queria ter escrito, mas terá que se acostumar a elas. É difícil encontrar palavras, dói demais.

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