Editorial

Índio deixa saudade

O agora ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot,entregou ontem (18) o cargo para sua sucessora, RaquelDodge, a primeira mulher a assumir o posto máximo doMinistério Público Federal na história do país. Em suapassagem durante quatro anos, especialmente nos últimostrês à frente das investigações da Lava Jato, Janot distribuiu denúncias contra grande parte das cúpulas dospartidos políticos brasileiros, como PMDB, PP, PSDB e PT.

Não escaparam das inquietações do ex-procurador figuras carimbadas da bandidagem operacionalizada nos poderesExecutivo e Legislativo, como os senadores RenanCalheiros e Fernando Collor de Melo, os ex-presidentes Lula e Dilma e o atual chefe do Planalto, Michel Temer. Este, aliás, enfrenta sua segunda denúncia, desta vez pororganização criminosa e obstrução à Justiça, mas tentabarrá-la na Câmara dos Deputados, como aconteceu na primeira.

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Janot incomodou muita gente. Mais que isso, expôs açõesdos principais nomes da política nacional que o MinistérioPúblico julga como crimes cometidos contra a nação.Mesmo criticado e rechaçado pelos “seus oponentes”, politicamente pressionado como talvez nunca antes tenha se visto em solo tupiniquim, o então procurador não se intimidou. Disparou flechadas e mais flechadas até oderradeiro mandato à frente da PGR.

Odiado por toda a classe política nacional, mas admirado por ampla parte da população trabalhadora, Janot deixa a Procuradoria já deixando saudades. Seu modelo de trabalho, rigoroso e persistente, colocou em xeque muitos políticos que não imaginariam que as investigações pudessem alcançá-los. Talvez um procurador geral nunca tenha trabalhado tanto quanto ele, pois a classe política dá hoje, mais do que nunca, indícios de sobra para a abertura de investigações e processos.

Janot fez o que se espera de um procurador geral da República. Armado com pontiagudas flechas, foi atrás de esquemas de corrupção, pediu investigações, prisões e apreensões. Munido de informações que a população está careca de saber, ajudou a desbaratar quadrilhas que saqueavam – e saqueiam – os cofres públicos. Não se omitiu, tampouco se amedrontou com xingamentos e perseguições que sofreu.

Janot passa o bastão para Raquel Dodge, que, segundo especialistas, tem um tom menos ameaçador como forma de trabalhar, mas que não deve afrouxar as investigações, sobretudo aquelas que dizem respeito à Operação Lava Jato. Para que a faxina ética e moral continue a ser feita na política brasileira, Dodge terá que ter postura firme e continuar a lançar flechas rumo aos inimigos do Brasil.

Em seu discurso de posse, Dodge disse que a população não suporta mais a corrupção e que cobra resultados neste combate. Isso demonstra que, em princípio e na retórica, está alinhada com os interesses gerais dos brasileiros edeterminada a mostrar serviço. Foi-se o índio Janot, masna PGR ficaram as fechas. O trabalho do ex-procurador não é unanimidade, mas mostrou que é possível, sim,colocar a bandidagem para correr. Talvez não com flechas,mas com caneta, responsabilidade e determinação.

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