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Elio Migliorança

NEM JUDAS FARIA PIOR

Quando Judas traiu Jesus, vendendo-se por 30 moedas, tornou-se a figura símbolo da traição. Analisando a questão, do ponto de vista de Judas, não fica difícil entender qual o raciocínio que o levou a trair o mestre, mesmo tendo com ele convivido durante três anos, presenciado os milagres e ouvido as pregações. Ocupando o cargo de tesoureiro, sonhava com o ministério da economia do Reino de Israel, pois acreditava que este era o reino do qual Jesus falava. Quando percebeu que os poderosos ameaçavam aquele projeto de reino, fazendo-o ir por água abaixo, resolveu salvar a própria pele e ainda lucrar em cima, traindo o mestre e entregando-o às autoridades. Na semana passada, a política nacional protagonizou um fato, amaldiçoado pela maioria, em que o povo sentiu-se traído pelos seus representantes. Não cassar o mandato de Natan Donadon foi uma afronta ao eleitorado brasileiro. Esse desfecho indecente foi a coisa mais esdrúxula que se viu na política nos últimos tempos, nesta democracia tupiniquim. Os danos à já desgastada imagem do parlamento brasileiro foi fatal e irreversível.
É aí que entra o comparativo com Judas. Judas traiu o amigo e mestre, os deputados traíram os seus eleitores e os códigos de ética que pautam os Legislativos pelo mundo. Foi uma maneira de salvar a própria pele, com o raciocínio “hoje é você, amanhã pode ser qualquer um de nós”. Salvamos o teu couro, um dia salvarão o nosso também. Como punir alguém no futuro por falta de decoro parlamentar? Há coisa mais indecorosa do que manter o mandato de um deputado presidiário? Roubar oito milhões, crime pelo qual o “elemento” foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), não é a mais grave falta de decoro parlamentar? Andar pelado na Câmara seria punido com a cassação, mas roubar tanto não justificou a cassação? Quantas pessoas podem ter morrido por falta de assistência porque o dinheiro para tal havia sido roubado?
A bem da verdade, a troca de um nome por outro não fará diferença, o substituto pode até ser pior, a questão é a cara de pau e a normalidade com que os deputados encararam o resultado da votação. O resultado mostra exatamente os valores e a ética praticados pelo Legislativo. E partindo do princípio de que “tanto é ladrão quem entra na horta como quem fica cuidando a porta”, tanto são responsáveis pela absolvição do meliante os que votaram pela absolvição como os que se omitiram, comparecendo e não votando, caso dos paranaenses Angelo Vanhoni (PT), André Zacharow (PMDB) e Nelson Padovani (PSC), como o ausente Eduardo Sciarra (PSD), para citar apenas os paranaenses.
E a maior ignomínia foi o condenado absolvido Donadon comparar-se a Jesus Cristo, quando disse que assim como Cristo foi crucificado pelo apelo das vozes das ruas, ele também havia sido condenado por causa do apelo das recentes manifestações. O que ninguém perguntou, nem ele explicou, é se os milhões que roubou da Assembleia Legislativa de Rondônia também foi por causa do apelo das ruas.
Este artigo não se aplica aos 233 deputados que votaram pela cassação.

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