2º Agita Rondon – 2019
Editorial

No limbo

A Venezuela está falida, enfrentando um colapso social sem precedentes nos últimos anos na América Latina. Não há alimentos para comprar, o salário-mínimo de um mês de trabalho não é suficiente para adquirir nem dois quilos de carne, a inflação é a mais alta do mundo, na casa de 1.000.00%, os remédios estão escassos, a ditadura de Nicolás Maduro não oferece as condições básicas de sobrevivência naquele país. Com medo e fome, as pessoas estão deixando o país, emigrando para seus vizinhos, como Bolívia, Peru e Brasil.

Em Roraima, Estado brasileiro que faz fronteira com a Venezuela, cerca de 500 pessoas pedem visto para ingressar no Brasil todos os dias. No último fim de semana, moradores de uma pequena cidade fronteiriça se revoltaram com a presença dos vizinhos nas ruas do paupérrimo município, creditaram a alguns deles uma agressão e roubo a um comerciante, e protagonizaram cenas de extrema violência, ignorância e desumanidade. Muitos venezuelanos foram agredidos, tiveram seus poucos pertences queimados e foram escorraçados do Brasil. A xenofobia em sua plenitude.

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Para as dificuldades, não há fronteiras. Tirando toda a casca composta por crenças, valores, cor da pele, religiosidade ou origem de nascimento, todos são pura e simplesmente seres humanos. Aliás, venezuelanos são seres humanos que têm experimentado vivências aterrorizantes nos últimos anos, que deveriam ser amparados e respeitados por pessoas que são. Mas estão sendo jogados de um lado a outro, como se vizinhos não tivessem responsabilidades compartilhadas. Ninguém consegue viver sozinho, nem mesmo conseguiram as mais potentes civilizações que surgiram na história.

Esse povo está no limbo, sem esperança, sem segurança, vivendo como maltrapilhos nas ruas de Roraima. Alguns, com sorte e apoio, conseguem emprego por ali mesmo, outros migram para as regiões mais populosas e que ofertam mais oportunidades de trabalho, mas outros tantos vivem na desilusão, sem saber para onde ir e como será o dia de amanhã.

Ontem (20), o Estado de Roraima pediu ao Supremo Tribunal Federal que feche a fronteira para estancar a imigração para o Brasil. A negativa dos ministros veio de imediato, condenando a medida e a classificando como “impensável” e “ilegal”. Fechar os olhos para quem mais está precisando não é mesmo uma atitude coerente e humana. É uma falta de amor ao próximo que choca pela insensibilidade e pelo desprezo a tantas pessoas.

Maduro lançou um novo plano econômico, que tirou cinco zeros da moeda para tentar conter a inflação estratosférica que ele mesmo fez surgir. Mas pessoas como Maduro não podem ditar os rumos das vidas das pessoas que formam uma nação. É preciso reestabelecer a ordem na Venezuela e acabar com essa guerra de um governo contra seu povo, sem esquecer que é preciso curar a dor e dar suporte aos refugiados. Um dia – e quem Deus vos livre -, pode ser você batendo na porta do vizinho.

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