Elio Migliorança

O BODE ENTRANDO NA SALA

Tem aquela folclórica história do “cara” que coloca um bode fedorento na sala, e diante do clamor dos presentes, que, incomodados com o mau cheiro e o desconforto causado, suplicam pela retirada do animal, atende-os levando o fedorento para longe do olfato alheio. E todos agradecem sensibilizados por terem sido ouvidos em seu clamor, como se o autor da sacanagem tivesse feito um favor ao desfazer a sacanagem da qual foi protagonista. A comparação é para antecipar uma sacanagem e das grandes que está em gestação no país, a ser detonada em breve. Espera-se apenas que o clima esteja propício para tal. O bode já está na sala. Refiro-me ao cronograma de obras para a Copa do Mundo de 2014. Em 2010 manifestei em vários momentos minha opinião contrária à realização deste evento por aqui. É muito investimento para pouco resultado. Dizer que precisamos projetar o país pelo mundo afora não é verdade. Já visitei quatro continentes, falta apenas o Australiano, e nos mais distantes recantos do mundo, das escarpas montanhosas do Peru ao deserto do Sinai, no Egito, das encostas pedregosas do Vesúvio na Itália às grutas de Qumran na planície do Mar Morto em Israel, quando me identifiquei como brasileiro, logo as pessoas demonstraram conhecer o futebol e o carnaval do Brasil. O que nos falta é crescer em educação, saúde e infraestrutura. Trazer mais turistas será mostrar nossa incompetência em disponibilizar aeroportos e rodovias decentes, e oferecer segurança para a estadia nas principais cidades do país. Com nosso tráfego aéreo doméstico os aeroportos já estão entupidos, imagine o caos num evento de tal envergadura.
Mas voltemos ao tema Copa do Mundo. A cada dia dá-se destaque ao atraso nas obras de preparação para o evento. O rei Pelé já declarou que o Brasil vai passar vergonha. Os representantes da Fifa vão mais fundo ainda nas críticas. Técnicos do governo fazem coro com os meios de comunicação para deixar a população apavorada com a possibilidade das obras ficarem “emboladas” no meio de campo e abrirem caminho para a aplicação de dinheiro público nos projetos que são particulares. Basta apenas deixar a carruagem andar um pouco mais e quando o prazo estiver bem curto, faz-se um decreto federal, declarando situação de alerta em função do cronograma atrasado, caminho aberto para a dispensa de licitações públicas e aí teremos a repetição do que ocorreu com os jogos Pan-Americanos de 2007 realizados no Rio de Janeiro. As obras projetadas acabaram custando cinco vezes mais. O bode será retirado da sala. Estará aberto o caminho para uma verdadeira orgia de gastos e desvios. É sempre assim. Serão lucros gigantescos para empreiteiras e federações, e mais todos aqueles que são por eles financiados em suas campanhas políticas. Ao povo restará pagar a conta, aproveitar para divertir-se com o circo armado, bem ao estilo relaxa e goza. E quando daqui a muitos anos alguém investigar o assalto ao dinheiro público vão dizer o que estão dizendo agora que se aproxima o julgamento dos denunciados do escândalo do mensalão: isso já é uma página virada.

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