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Arno Kunzler

O Brasil que temos

Estamos chegando ao final de uma das campanhas mais agressivas da história política do Brasil. Acusações de lado a lado.

Os dois candidatos têm eleitores agressivos e defensores ardorosos de suas candidaturas.

Os dois têm campanhas com críticas; os dois têm grupos sólidos e fortes que os acompanham.

Nenhum partido político no Brasil tem uma militância organizada e municiada para fazer campanha como o PT.

Se isso é verdade, também é verdade que nunca antes na história das eleições que o PT disputou, o partido tinha tanta rejeição, o governo sofria tantas acusações de corrupção.

Ao contrário do que os dois candidatos argumentam nos programas, a diferença entre um e outro não é um abismo.

É possível prever que o próximo governo, seja quem for, não depende muito da sua própria vontade e sim, muito mais, das circunstâncias que encontrará o país.

O Brasil que sairá das urnas não será tão diferente do Brasil que vivemos hoje. E é bom prestar atenção nisso.

O próximo presidente, seja quem for eleito, receberá um país praticamente dividido entre Norte e Sul, entre nós e eles, como a presidenta Dilma insiste em dizer.

O próximo presidente receberá um governo com sérios problemas para enfrentar com a Previdência Social, em que longe dos discursos bonitos se esconde uma das piores heranças que os brasileiros terão que pagar.

O próximo presidente herdará um país com inflação ressurgindo, que precisa ser combatida. Seja como for esse combate, alguém terá que pagar…

O próximo presidente herdará um Congresso Nacional inoperante, que não aprova reforma de coisa alguma, portanto, não adianta prometer reformas como ambos fazem, pois elas só acontecerão se o Congresso votar favoravelmente.

O próximo presidente herdará um país cujo Judiciário vive para funcionar como precisa; terá que sofrer reformas profundas.

O próximo presidente herdará uma Petrobras em dificuldades como jamais uma empresa pública esteve. Além de negócios malfeitos que resultaram no enfraquecimento da maior empresa brasileira, a corrupção destruiu sua capacidade de liderar novos projetos num curto espaço de tempo. Serão necessários tempo e dinheiro para recuperá-la.

Também herdará cidades inadministráveis, sem transporte coletivo de qualidade, sem capacidade para absorver o número de veículos que deseja transitar e, sobretudo, sem recursos para atender as grandes demandas na área da saúde e infraestrutura.

Mas o próximo presidente também receberá um país gigante, cuja arrecadação bate recordes praticamente todos os meses.

Um país cujo agronegócio é o segundo maior do mundo e muito bem organizado da porteira para trás. Falta construir hidrovias, ferrovias e portos. Sem privatizar e sem fazer parcerias, o governo não terá dinheiro.

Também receberá um país que mudou o mapa da educação. É inquestionável o crescimento que o Brasil teve em setores estratégicos da educação, como as escolas técnicas. Longe do ideal ainda, é verdade.

Um país que tem um programa, bem ou mal gerido, mas tem um programa de fortalecimento da malha rodoviária e de construção de aeroportos.

Também é um país que cresce e se fortalece economicamente pela construção civil, cujos incentivos têm sido fundamentais para recuperar uma defasagem de milhares de casas por ano.

Um país que enxergou seus pobres e miseráveis e estendeu a mão para auxiliá-los.

É preciso que esse auxílio, sob pena de se tornar um monstrinho descontrolado, abra portas de saída, de modo que a pessoa que recebe benefícios um determinado tempo, um dia possa sair dos programas qualificado para trabalhar e ganhar sua própria renda. Independe de quem for eleito, esse programa não pode acabar, e ainda, independe de quem for eleito, esse programa vai ter que criar as portas de saída.

O mesmo vai ter que acontecer com os benefícios do salário desemprego. Não se justifica um país que tem a menor taxa de emprego da sua história ter esse nível de dependentes do salário desemprego.

Logo, o Brasil não é tão ruim como se fala e nem é tão bom como outros falam. É um gigante, com muitos problemas.

Não será com mentiras, não será com estatísticas falsificadas e nem com números imaginários que vamos melhorar. Será com a verdade nua e crua, será com realismo e com ousadia.

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