Editorial

O buraco é bem mais embaixo

A polêmica está decretada em torno do Saae, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto. A autarquia do município de Marechal Cândido Rondon tem sido alvo de críticas por conta do constante racionamento de água aos usuários. Pedidos de privatização e ataques extremos não faltaram nos últimos dias. Os debates acalorados se pulverizaram nas redes sociais e entre lideranças políticas. Nesse momento, o mais sensato é agir com coerência, humildade e sem paixões. Até porque o buraco é bem mais embaixo.

O planeta terra nunca teve um mês de setembro tão quente desde que se começou a medir as temperaturas ao redor do globo. Boa parte dessa secura ajudou a transformar Amazônia e Pantanal em um mar de chamas. Desde o ano passado não chove satisfatoriamente em todo o Brasil. O Paraná tem a maior crise hídrica de sua história.

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Reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de Curitiba sucumbem abaixo dos 15% de sua capacidade. A situação do Paraná é tão grave que o Estado foi incluído no mapeamento hídrico do Monitor de Secas. O monitor foi criado em 2014 para atender o Nordeste, onde são mais recorrentes as secas prolongadas. Com a crise hídrica, o Paraná foi incluído também. Em Marechal Cândido Rondon, o rodízio que começou nos primeiros meses do ano persiste. E agora, mais uma vez, será ampliado. Não chove, e La Ninã também entra como fator atenuante.

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Nied maio 2022 V

O cidadão rondonense merece um Saae cada vez melhor. Melhor dizendo, um serviço de abastecimento de água e tratamento de esgoto cada vez melhor, independente de quem esteja oferecendo a frente. É natural que as pessoas fiquem chateadas e cobrem explicações, afinal, não têm água disponível a todo momento e pagam por isso. E as cobranças são justas. É possível, sim, debater mudanças no sistema, mas desde que sejam civilizadas e não tenham pretensões eleitoreiras.

No entanto, há algo muito mais urgente que precisa ser implementado: o uso consciente da água pelo cidadão. Não é porque você está pagando que tem a obrigação de gastar água todo dia em situações que hoje são fundamentalmente irrelevantes, como lavar as calçadas seguidamente ou o carro com mangueira aberta. Aliás, quem pensa assim deve repensar o que é viver em sociedade.

Uma santa chuva está prometida para hoje (09) no município. Que venha para trazer um pouco de alento. No entanto, o buraco é bem mais embaixo. O déficit hídrico se acumula há um ano e meio, com centenas de milímetros a menos que deixaram de encharcar o solo, encher os rios e reservatórios e chegar aos lençóis freáticos.

Não é de hoje que há falta de água em Marechal Cândido Rondon, um dos poucos municípios do Paraná que têm sua própria rede de coleta, tratamento e distribuição de água – a Sanepar está em 345 dos 399 municípios do Estado. Bons debates, que exponham as dificuldades e mostrem caminhos são fundamentais para o desenvolvimento do setor. Enquanto a seca persiste e as soluções não se apresentam, o melhor a fazer é, se possível, ficar em casa… e fechar a torneira.

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