Brincando na Praça 2019
Tarcísio Vanderlinde

O esperanto que deu certo

 

O hebraico falado hoje na Terra Santa constitui a recriação de um idioma que havia desaparecido nos quase dois mil anos de diáspora judaica pelo mundo. A recriação teve a contribuição original do intelectual judeu Eliezer Bem Yehuda (1858-1922).

Na visão do linguista brasileiro Bruno Dallari, trata-se do caso de política linguística mais bem-sucedido da história, tendo sido fundamental para a (re)criação de uma identidade após permanecer como língua morta durante séculos e ter sobrevivido na forma clássica graças apenas ao seu uso litúrgico.

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Dallari observa que Yehuda não apenas reconstituiu, mas de fato criou um novo idioma. Mais de 50% das palavras do hebraico moderno foram termos inventados, que não existiam até 1880. Criou flexões e introduziu o uso de vogais que não existiam no hebraico antigo. Incorporou palavras associadas a dialetos falados pelo povo judeu na diáspora, como é o caso do iídiche, russo, polonês, ucraniano, latino e árabe.

Embora lembre o hebraico antigo, não se trata mais da mesma língua que se falava nos tempos de Cristo. Por outro lado, com a evolução tecnológica, assim também como no português ou em outras línguas, novas palavras, principalmente de procedência do inglês, continuam sendo incorporadas ao idioma. Mesmo assim, o hebraico moderno pode ser considerado o esperanto que deu certo para o país onde é mais falado: Israel.

Só para lembrar, o esperanto resultou da tentativa de se criar uma língua universal que pudesse gerar maior entendimento entre as pessoas. A língua foi criada por volta de 1887 pelo oculista e filósofo polonês Ludwig Lazarus Zamenhof. Na prática, o inglês cumpriu a intenção “colonizadora” do esperanto que ainda tem cerca de 100 mil falantes teimosos pelo mundo.

A forma mais rápida de se aprender palavras e expressões-chave em hebraico é pela transliteração, um recurso para se aprender rapidamente palavras e expressões também em outro idioma. Já o domínio real da escrita hebraica requer um esforço maior, além de se habituar a ler da direita para esquerda.

Mesmo com conhecimentos elementares dessa língua, já é possível compreender que uma determinada passagem bíblica, por exemplo, pode adquirir um sentido mais rico do que aquele resultante da tradução para o idioma que se domina mais.

Uma oração milenar hebraica pode aparecer transliterada dessa forma: Shemá Yisrael, Adonai Elohênu, Adonai Echad (Ouve Israel, Adonai nosso Deus, Adonai é Um). A oração presente em Deuteronômio constitui a profissão de fé central do monoteísmo.

 

O autor é professor da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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