Elio Migliorança

O falso positivo

Em tempo de pandemia, houve muitas mudanças tanto no comportamento quanto nas expressões utilizadas nos meios de comunicação. Uma delas é o tal “falso positivo”. Parece um contrassenso, pois o que é falso não pode ser positivo e o que é positivo não pode ser falso. Até nisso a Covid-19 conseguiu colocar tudo de cabeça para baixo.

Na medicina o falso positivo ocorre ao realizar um exame em que o resultado indica a presença de uma doença quando na realidade ela não existe. Enquanto estamos envolvidos nesta devastadora guerra contra um ser invisível chamado Covid-19, há outro falso positivo rondando o setor produtivo brasileiro, e de forma especial a região Oeste do Paraná, um dos celeiros do Brasil.

Casa do Eletricista – RETOMA

Na semana que passou a saca de soja de 60 quilos atingiu inimagináveis R$ 100. Com o dólar nas alturas e o mercado em alta, uma das principais commodities nacionais, a soja, foi ao alto do podium. É um caso clássico de falso positivo. Aliás, uma história que o produtor rural conhece, já vivida em tempos passados e que deixou tristes lembranças e muitas falências pelo caminho.

Por que um falso positivo?

O que parece positivo, uma saca de soja a R$ 100, na verdade é uma armadilha perigosa. Entusiasmados com este preço, muitos agricultores descuidados vão investir e assumir compromissos que no futuro podem ocasionar sua ruína.

Recordemos um dos momentos do passado em que o mesmo produto atingiu valores além da imaginação. No momento da compra dos insumos necessários para a produção, os preços seguiram as cotações daquele momento, o que significa alto custo para realizar o plantio. Quando ao final de quatro meses ocorreu a colheita, os preços haviam despencado em média 25%. Considerando os custos de produção, ao final não houve sobras, a produção apenas cobriu as despesas. Se algo semelhante ocorrer nesta safra, quando esta soja estiver sendo colhida no fim de janeiro de 2021, sua cotação poderá ter caído para R$ 75 a saca de 60 quilos. Não podemos esquecer também que a safra em questão será colhida no fim de janeiro do próximo ano e até lá dezenas de fatores podem interferir no processo produtivo. Entre eles a questão do clima, que nos últimos tempos tem demonstrado um descontrole acentuado e a geopolítica mundial poderá sofrer alterações profundas que podem levar os compradores para outros mercados, já que os principais consumidores dos nossos produtos são os chineses e eles vão comprar onde lhes ofereçam mais vantagens.

Devemos ainda considerar que vamos atravessar no próximo ano a mais grave crise econômica da história do Brasil, e não esqueçamos que ainda estamos entrando na maior e mais grave pandemia planetária com um número imprevisível de mortes no Brasil, mas que podem superar a casa dos 100 mil mortos. Isso é assustador sim, portanto esta euforia da soja é um falso positivo que pode nos iludir, nos induzir a um planejamento furado e que pode comprometer o futuro da propriedade.

Calma, equilíbrio, e muito cuidado com as decisões dos próximos meses. Isso pode ser a salvação do nosso futuro próximo, pois, não se iluda, estamos enfrentando duplo apocalipse. Hora de união, planejamento, muita fé e solidariedade. Descubra como fazer a sua parte.

 

O autor é professor em Nova Santa Rosa

miglioranza@opcaonet.com.br

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