Elio Migliorança

O GUIA OTO E O GOVERNADOR

Oto foi o guia que nos mostrou as maravilhas das montanhas rochosas no Canadá e nos contou muitas histórias envolvendo as conquistas do território pelos ingleses e também nos brindou com outras histórias envolvendo os aborígenes. Aborígenes é o nome pelo qual são designados povos autóctones, nativos ou indígenas que viviam numa área geográfica antes de sua colonização por outros povos. Entre as muitas histórias que enriqueceram nosso conhecimento sobre o país e ao mesmo tempo tornaram nosso passeio mais agradável está aquela envolvendo os senhores Fraser e Thompson, dois lendários personagens do período da corrida do ouro no Canadá que ocorreu por volta dos anos de 1880, e que foram homenageados com o nome de dois importantes rios, o rio Fraser e o Rio Thompson. Segundo relato do senhor Oto, o guia, certo dia Fraser se aproximou do amigo Thompson e lhe disse: amigo Thompson, hoje acordei muito bem, está um dia muito belo e por isso é “um bom dia para iniciar uma guerra”. Dito isto, partiram para iniciar uma luta contra uma tribo cujo território desejavam conquistar em busca de ouro. Quando retornei da viajem e pisei novamente o solo paranaense, uma das primeiras manchetes que li nos jornais trouxe-me à mente a história do guia senhor Oto. A manchete que li noticiava a assinatura de um decreto pelo governador do Paraná instituindo a cobrança de Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a energia consumida na área rural. Fiquei imaginando a cena. O governador levanta, abre a janela e olha para o céu azul e as ruas tranquilas da Capital do Estado. Hoje está um dia bonito, raciocina ele, as ruas estão tranquilas porque a guerra com os professores acabou, então é um bom dia para começar outra guerra. Acho que os agricultores estão ganhando muito dinheiro, safra acima do esperado e como o meu caixa está quebrado, vou colher de onde não semeei e vou fazê-los repartir comigo as sobras do seu trabalho, e se não existirem sobras terão que pagar mesmo assim. E foi assim que um “bode fedorento” com o nome de “decreto 1600/2015” entrou no salão paranaense instituindo a cobrança de ICMS sobre a energia elétrica na área rural para o consumo acima de 1.000 quilowatts/hora. Considerando que no último ano a energia elétrica já teve aumento de 70% em média, mais este imposto inviabilizaria de vez a produção de aves, suínos e leite no Estado. Diante da legítima revolta de todo o setor produtivo do Estado, veio a bancada governista e, como se estivesse nos fazendo um grande favor, retirou aquele “bode fedorento” de dentro do salão, anunciando que o governador revogou o decreto, e esperaram nossos aplausos pelo atendimento à justa revolta do setor, que se nega a pagar ainda mais pela caótica situação financeira a que os incompetentes levaram as finanças estaduais. Esta mesma bancada governista que aprovou o assalto ao caixa do fundo de aposentadoria do funcionalismo público estadual, que se negou a aprovar a reposição da inflação no salário do magistério estadual, está em vias de aprovar aumentos maiores para os funcionários do Legislativo e do Judiciário. Como diria nosso guia Oto: hoje é um bom dia para os políticos criarem vergonha e administrar o dinheiro público com coerência e honestidade.

 

* O autor é professor em Nova Santa Rosa

 

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