Tarcísio Vanderlinde

O último discurso revisitado

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar, se possível – judeus, gentios… negros… brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar – desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.

Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

[…] Aos que me podem ouvir eu digo: não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. É assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

[…] Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!

[…] Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos deste poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

[…] Lutemos por um mundo de razão um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à aventura de todos nós. […] Estamos saindo das trevas para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade.

[Fragmentos do “último discurso” de Charles Chaplin -(1889-1977). O discurso foi proferido ao final do filme “O Grande ditador” (1940), uma das obras primas de Chaplin].

 

 

O autor é professor da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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