Copagril
Dom João Carlos Seneme

O vento cessou e houve uma grande calmaria

“Vamos para a outra margem”. Esta é a ordem de Jesus aos seus discípulos no Evangelho deste domingo (Mc 4,35-41). Do outro lado do lago de Generasé, ou Mar da Galileia, estavam as cidades de cultura grega, portanto pagãs, do território da Decápolis. Jesus convida seus discípulos a ir a lugares diferentes, desafiadores e de cultura diversa.

Os discípulos, ao comando de Jesus, sobem no barco. De repente, inicia uma tempestade, fenômeno comum no Mar da Galileia. Quando os pescadores se dão conta, já estão no meio da tempestade. É uma cena que quer mostrar mais do que uma simples adversidade. Há um grande contraste: enquanto o barco está à deriva, Jesus dorme! Os apóstolos se preocupam cada vez mais e o medo toma conta deles. De um lado desespero, de outro a tranquilidade de Jesus! Então gritam a Jesus em um misto de desespero e confiança. Eles acreditam n’Ele e sabem que pode fazer alguma coisa.

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Mais do que um relato de uma viagem de Jesus com os discípulos através do Lago de Tiberíades, a narração que São Marcos nos apresenta deve ser vista como uma página de catequese sobre a caminhada dos discípulos em missão no mundo. Os elementos utilizados aparecem sempre na Bíblia: o mar é símbolo do mal e da morte. Diante dele o ser humano sente uma força que não é capaz de dominar. O barco é sempre símbolo da Igreja que navega em meio a dificuldades e ameaças: tempestades, tormentas, ondas enormes. Por isso, o texto evangélico quer nos ensinar algo a mais, fazendo uso de elementos simbólicos (o mar, o barco, a tempestade, a noite, o sono de Jesus), São Marcos apresenta-nos uma reflexão sobre a comunidade dos discípulos em marcha pela história.

No momento do desespero, os discípulos gritam por Jesus e são prontamente atendidos. Ele levanta e, com palavras seguras, domina a fúria do vento e do mar. Manifesta um poder que é próprio de Deus. De dentro do barco, Jesus revela a sua divindade e o poder de Deus contra o mal. Na cruz Jesus venceu a morte. Para os discípulos e também para nós, hoje, o texto ajuda a consolidar nossa fé em Deus. É um apelo à confiança e a não se deixar dominar pelo medo. Deus está sempre presente, “Tende confiança, eu venci o mundo”; “Eis que estarei sempre convosco até o fim dos tempos”. Diante das dificuldades, devemos sempre nos lembrar dessas palavras e pedir com confiança e fé: “Senhor, ajuda-nos”. O medo e o desespero paralisam, a confiança e a fé nos fazem “ir para outra margem” com ousadia e coragem. A certeza da presença de Jesus, principalmente diante das dificuldades, nos ajudará a concretizar no mundo a missão de discípulos missionários.

Viver a vida segundo os princípios cristãos não significa que nunca passaremos por dificuldades; elas sempre farão parte de nossa vida, de nossa missão. O importante é não perder a confiança e nem deixar que o medo, as “tempestades” nos façam desanimar ou buscar refúgios que nos afastam do mundo. O convite é para “avançar para águas mais profundas”, ir “para outra margem” onde seremos desafiados, mas o Senhor estará sempre conosco. A Eucaristia é o alimento que sustenta nosso caminhar e nosso testemunho.

 

* O autor é bispo da Diocese de Toledo

revistacristorei@diocesetoledo.org

 

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