Elio Migliorança

Os fracos enfurecidos

 

Há milhões de brasileiros que pertencem a classes profissionais não organizadas em sindicatos ou associações. Pertencem àquela maioria que serve de massa de manobra sempre que o caixa fura e é necessário promover mudanças para cortar despesas e aumentar a arrecadação. O que vimos e ouvimos até agora sobre a reforma da Previdência tem deixado a parcela nacional dos mais fracos muito enfurecida. Nos próximos meses este tema será como o pão nosso de cada dia; estará em pauta nas reuniões de família, no trabalho, na hora da cervejinha e até nas celebrações religiosas.

Há uma razão para o furor dos mais simples. Quando o presidente Bolsonaro era candidato, seu discurso que encantou as multidões era justamente o tratamento igual para todos e principalmente o fim dos privilégios de algumas classes que ao longo de décadas foram incorporando privilégios e hoje vivem como uma casta superior. No projeto do governo ainda não ficou claro o corte de privilégios inaceitáveis. É isto que está deixando as pessoas enfurecidas. Existem situações que, embora legais, podem ser classificadas como absurdas e inaceitáveis. Entre muitos outros, há no Senado Federal 14 filhas solteiras pensionistas do Senado que recebem cada uma R$ 33,7 mil. A mais idosa desse grupo tem 88 anos. No total, 170 dependentes de ex-servidores do Senado recebem o benefício. O gasto anual com as filhas solteiras fica em R$ 32,4 milhões. A pensão mais antiga entre todas as pensionistas vem sendo paga há 64 anos. E aí temos também a aposentadoria de ex-governadores, que só no Paraná custa uma fortuna e nelas alguns absurdos como o caso dos vices que assumiram o cargo por nove meses ou um ano e depois recebem uma aposentadoria vitalícia na maior cara de pau. E o povo pagando, e claro, com toda a razão ficando muito irado por ver que a reforma da Previdência não está mexendo em privilégios criados no tempo em que a comunicação era com sinais de fumaça, mas que não tem racionalidade em pleno século 21.

Outro gargalo está no Judiciário, onde penduricalhos incorporados ao salário levam as aposentadorias a um patamar vergonhoso se considerarmos o que outros países mais desenvolvidos pagam aos seus aposentados. E na hora que entrarmos na área militar, os números assustam pelo gigantismo e pela falta de respeito que foi a criação de tais privilégios. Tenho o maior respeito pelas Forças Armadas, mas não podem ser tratados como se fossem uma classe com sangue azul. Essa história das filhas solteiras receberem o benefício dos pais quando estes morrem, garantida também a todas as filhas solteiras de militares, é da idade da pedra, quando as mulheres não faziam outra coisa além dos afazeres domésticos e aí até precisavam de amparo. Mas não se justifica em tempos atuais em que as mulheres conquistaram e muito bem o seu espaço profissional. Lógico que atrás desta lei vieram as espertezas safadas que era o de nunca se casar, mesmo que casadas fossem, para receber o benefício pelo resto da vida.

Se todos precisam dar sua contribuição, que sejam efetivamente todos. Da forma como o problema está posto ele é coerente: estamos vivendo mais, logo podemos nos aposentar um pouco mais tarde, aumentando a idade mínima. O que temos de concreto é reformar para que a aposentadoria ainda exista no futuro.

 

 

O autor é professor em Nova Santa Rosa

miglioranza@opcaonet.com.br

 

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