Elio Migliorança

Parada obrigatória

Passada a agitação do processo eleitoral e enquanto assistimos ao turbilhão de manifestações pró e contra o resultado das eleições, entre ataques e defesas, denúncias e manifestações ruidosas, resolvo retirar-me para um lugar reservado e aproveitar a motivação que o calendário propõe que é refletir sobre o Dia de Finados, 02 de novembro. Oportuna reflexão, afinal, a única certeza do ser humano a partir do seu nascimento é a morte. O ser humano não gosta de falar no assunto, porque a morte é a ruptura brusca e total com tudo o que nos liga a este mundo. Podemos dividir as pessoas em dois grupos: há os que acreditam ser a morte o ponto final, “morreu acabou” costumam dizer, mas há os que acreditam em vida após a morte e aí a questão muda radicalmente o sentido.

A tradição do culto aos mortos remonta aos primórdios da humanidade. Desde os mais antigos povos de que se tem registro na história, há relatos de toda uma mística e culto aos mortos. Entre os povos indígenas este culto e homenagem aos antepassados sempre foi muito forte. Por volta do ano 980 d.C é que se instituiu oficialmente o 02 de novembro como dia dedicado aos mortos. A partir daí as religiões conclamam seus seguidores a prestar homenagem aos seus falecidos e ao mesmo tempo refletir sobre a brevidade da vida, que é o que estamos fazendo, e avaliar nossa caminhada neste mundo já que não somos eternos. Há ditados populares e citações bíblicas que falam da chegada da “dona morte” sem aviso prévio. O próprio Cristo nos alertou dizendo: vigiai e orai porque não sabeis o dia e nem a hora. O teólogo Leonardo Boff, em seu livro “A ressurreição de Cristo, a Nossa Ressurreição da Morte”, na página 94, faz uma bela comparação dizendo que a morte é semelhante ao nascimento. “Ao nascer a criança abandona o útero da mãe aos poucos, foi se tornando sufocante. Passa pela crise mais penosa de sua vida fetal. A criança é empurrada de todos os lados, apertada, quase sufocada e impelida para fora, sem saber que após essa passagem a espera o ar livre, o espaço, a luz, o amor e um mundo novo que começa com novos relacionamentos, e aí descobre que os pais já lhe prepararam com todo amor e carinho um ambiente agradável. Ao morrer o ser humano passa por semelhante crise biológica, enfraquece-se, vai perdendo o ar, agoniza, enfrenta uma luta dentro de si mesmo porque sua vida é como que arrancada do corpo. E assim como o nascimento tira a criança da estreiteza do ventre da mãe e a coloca numa vida aberta ao tempo e ao espaço, também a morte tira o ser humano das limitações terrenas e o coloca numa nova dimensão: a eternidade.

Podemos afirmar que a morte nos dá o verdadeiro nascimento. Da mãe para o mundo, entramos no provisório; do tempo para a eternidade, entramos no definitivo. Não somos responsáveis ao nascer, mas o somos ao morrer. Saindo do túnel da morte, entramos num mundo novo que nos coloca em plena e eterna comunhão com o Deus que aqui buscamos”.

Como gostaríamos de ser lembrados após nossa morte? O que terá realmente valido a pena? De que realizações nos orgulharemos e levaremos como troféu que valeu a pena conquistar? Todas estas indagações justificaram esta parada obrigatória para pensar na vida, justamente no dia dos mortos.

 

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