Copagril – Sou agro com orgulho
Gustavo Pedroso

Poupança: um porto seguro para o seu dinheiro em tempos de crise?

Não é novidade que o mundo atravessa uma de suas mais graves crises dos últimos 100 anos. Além dos inúmeros problemas na área de saúde, temos experimentado uma grande destruição de valor da economia mundial. Vimos o PIB dos Estados Unidos, maior economia do planeta, cair 4,8% no primeiro trimestre deste ano, o pior resultado desde a crise financeira mundial de 2008. No Brasil, o recuo do PIB foi da ordem de 1,5% no primeiro trimestre, marcado por intensa saída de fluxo de capital estrangeiro do país e pelo aumento da taxa de desemprego, que atingiu 12,2% no último trimestre, segundo dados do IBGE.

Em tempos de grande incerteza, a maioria das pessoas busca por proteção e segurança, optando por transferir boa parte de seus recursos para o que eu tenho chamado de “quarentena financeira”. Prova disso é que, pelo segundo mês consecutivo, em maio, a caderneta de poupança, considerada a mais popular entre as formas de aplicação financeira existentes no Brasil, registrou a maior captação líquida (aplicações menos resgates) de toda a série histórica do Banco Central, iniciada em 1995.

Casa do Eletricista – BOBCAT

Mas será que, mesmo diante do cenário atual, de grande aversão a risco, a poupança é o produto mais indicado e que apresenta a melhor relação custo/benefício para seu dinheiro?

De 2015 para cá, a taxa Selic – taxa básica de juros da economia – saiu de 14,25% para 2,25% ao ano, atingindo seu menor patamar desde 1996, início da série histórica. O Banco Central, em comunicado ao mercado realizado nessa semana, ainda deixou as portas abertas para mais um corte residual na próxima reunião, podendo levar a Selic a 2,00% até o final de 2020.

Pela nova regra, enquanto a Selic estiver abaixo de 8,5% ao ano, a poupança remunerará as aplicações à taxa de 70% da Selic + TR (Taxa Referencial, que hoje é praticamente zero). Em termos nominais (sem descontar a inflação) isso significa que, na melhor das hipóteses, caso a Selic se mantenha em 2,25% ao ano, a poupança renderá apenas 1,57% ao ano.

Estabelecendo um cenário comparativo, nos últimos 12 meses, a poupança apresentou rentabilidade nominal de 3,57% e, descontando a inflação do período (de 1,88%, com base no IPCA consolidado de maio), a rentabilidade real foi de 1,69%. Assim, R$ 100 aplicados há 12 meses valiam R$ 103,57 no fim de maio e, descontada a inflação, somavam R$ 101,69. Isto é, com a rentabilidade nominal de 3,57%, bem superior à prevista para esse ano após os cortes da taxa Selic, o valor real (descontada a inflação) ganho em um ano foi de apenas R$ 1,69 para cada R$ 100 aplicados na poupança.

Isso sem falar em outra grande desvantagem da poupança: o fato de a rentabilidade ser mensal em vez de diária. Assim, em caso de resgate antes de 30 dias completos, aquele valor terá rentabilidade zero.

 

E quais são as alternativas à poupança?

Seja pensando em formar sua reserva de emergência ou buscando proteção em momentos de adversidade, o mercado financeiro dispõe de produtos de renda fixa igualmente conservadores, seguros e com alta liquidez, mas que entregam uma remuneração maior do que a da poupança, mesmo após descontadas todas as taxas e imposto de renda. Ou seja, você terá a mesma segurança e estabilidade da poupança, seu dinheiro estará disponível rapidamente, caso necessário, mas sua rentabilidade será maior.

Produtos de renda fixa pós-fixados, como CDBs de liquidez diária com rentabilidade de, pelo menos, 100% do CDI, Tesouro Selic e fundos DI com resgate em D+0 ou D+1 cumprem bem este papel.

Peguemos o exemplo anterior da aplicação de R$ 100 nos últimos 12 meses. Este valor aplicado em um CDB ou fundo DI (sem taxa de administração) à taxa de 100% do CDI (4,87%) atingiria o montante de R$ 104,87 em 12 meses e, descontando o imposto de renda de 20% sobre a rentabilidade, chegamos ao ganho líquido de R$ 3,90, contra R$ 3,57 da poupança. Essa diferença de R$ 0,33 representa um acréscimo de 9,2%. Se ampliarmos a aplicação inicial para R$ 100 mil, por exemplo, estamos falando em deixar de ganhar R$ 330 aplicando na poupança.

A diferença parece pequena nos valores do exemplo apresentado, mas devemos levar em conta que um investimento conservador que paga somente 100% do CDI ainda é bem pouco otimista. Atualmente, é comum encontrarmos aplicações financeiras tão conservadoras quanto a poupança, que apresentem rentabilidade de 104% a 110% do CDI, fazendo com que o ganho salte de 9% para 15% a 20% acima da poupança, respectivamente.

 

Então por que o brasileiro continua aplicando seu dinheiro na poupança?

Podemos elencar alguns motivos pelos quais, mesmo com tantas oportunidades melhores, o brasileiro ainda insiste em manter seus recursos na poupança. Dentre eles estão a falta de educação financeira e o consequente desconhecimento das opções de investimento que o mercado financeiro proporciona, a comodidade de não precisar “fazer quase nada” para aplicar o dinheiro na poupança e a falta de confiança nas instituições financeiras, como bancos de investimento e corretoras de valores. No entanto, devo lembrar que alocar seus recursos em aplicações financeiras mais rentáveis é muito mais simples e seguro do que a maioria imagina.

Como podemos ver, há diversas opções de investimentos melhores do que a poupança. Na verdade, colocar as suas reservas nessa aplicação significa deixar de ganhar dinheiro. Basta um pouco de atitude, boa vontade, disposição e mente aberta para conhecer e enxergar as oportunidades que o mercado financeiro proporciona, mesmo em momentos de crise.

 

Gustavo Pedroso é economista, investidor profissional e assessor de investimentos com atuação em Curitiba e região Oeste do Paraná

gustavo.pedroso@cordierinvestimentos.com.br

TOPO