Ford/Abradif/Rodovel Ranger
Elio Migliorança

PRA NÃO ESQUECER

Na tarde daquela terça-feira, 08 de julho, quando a seleção brasileira perdeu para a seleção alemã por 7 a 1, a frase mais repetida pelos comentaristas esportivos foi: “este é um dia para ser esquecido”. Penso diferente, este é um dia para nunca ser esquecido, é um dia para ser lembrado, estudado, analisado e dele tirar todas as lições possíveis para aprender a fazer melhor. A pergunta a responder é: por que o desespero nacional pela derrota da seleção? Afinal, era uma partida de futebol, depois da qual cada um voltou para casa, uns mais e outros menos mal-humorados, mas a saúde, o saldo bancário e as contas a pagar continuaram as mesmas. No dia seguinte, todos voltaram ao trabalho e a vida seguiu seu curso normal. Esta devia ser a normalidade vivida por todos os apaixonados ou indiferentes pelo futebol. Mas não é assim porque os meios de comunicação foram manipulando as pessoas de tal forma que conseguiram confundir futebol com patriotismo. Torcer pela seleção tornou-se uma obrigação. Ser indiferente ou ter a coragem de apontar defeitos no esquema de trabalho dos dirigentes ou questionar o uso indevido de recursos públicos é visto como crime contra a segurança nacional. Pois bem, este desastre já foi anunciado há tempo pelos que tinham a cabeça no lugar. Criaram a fantasia de que somos imbatíveis, que temos os melhores jogadores do mundo, que contra nós ninguém pode, que esta é a pátria de chuteiras, e assim, enquanto os outros treinavam com seriedade e determinação, nossa seleção passeava e festejava ao som de pagode. Enquanto os outros jogavam para o time, nossos atletas eram egoístas e cada um queria marcar o seu gol porque a nossa imprensa elege como “salvador da pátria” aquele que marcou o gol, esquecendo o restante da equipe. Por enquanto tivemos sorte porque perder a Copa não mudou a vida para a maioria da população, só para aqueles que queriam roubar um pouco mais no embalo da euforia pela conquista da taça, se tivéssemos ganhado o mundial. Agora vem o principal. Não é trágico perder a Copa. A tragédia vai acontecer no dia que o Brasil perder de goleada na área da economia, pois se observarmos a forma como o país vem sendo administrado, em curto espaço de tempo pagaremos caro pela ilusão de que o país está indo muito bem. O tombo pode ser maior do que aquele da seleção. Nossa dívida já ultrapassou os R$ 2 trilhões, e no ano de 2013 gastamos R$ 243 bilhões só com pagamento dos juros da dívida pública. Os gastos do governo só crescem, a inflação está batendo de forma vigorosa à nossa porta e os serviços públicos não atendem às necessidades da população. Enquanto a crise que se espalha pelo mundo é enfrentada pelos governos com rapidez e eficiência, aqui ela é tratada como uma invenção da oposição. Ao contrário da ressaca pela derrota da seleção, que em poucos dias passa e é esquecida, uma crise econômica terá efeitos desastrosos na vida da população e levará muito tempo para ser superada. Os programas sociais do governo estão criando uma geração de parasitas, que recebe o alimento na boca ao invés de serem ensinados a lutar para obtê-lo. O futebol nos ensinou a dar um basta na cultura da aceitação e do conformismo. Não tenho vergonha da seleção e nem do Brasil, tenho vergonha do que alguns políticos fazem e da criminosa proteção a ladrões e corruptos.  
* O autor é professor em Nova Santa Rosa
miglioranza@opcaonet.com.br

TOPO