Copagril
Tarcísio Vanderlinde

Que deus me ajude

Em sua biografia sobre Martinho Lutero, o escritor Martin Dreher afiança que, apesar de crítico mordaz, o reformador não tinha intenção de romper com Roma. Queria muito mais uma reforma da Igreja do que confronto com ela. Uma análise isenta dos fatos nos leva a esta conclusão, porém,as complexas circunstâncias sociopolíticas e religiosas o levaram a um rompimento irreversível.

Lutero teve dificuldades em lidar com a sociedade onde se encontrava. Política e religião se entrelaçavam fortemente ao final da Idade Média. Inquieto, não raras vezes sentia-se desconfortável no ambiente onde vivia. Em sua reclusão monástica, “viveu num mosteiro fora de tempo e espaço,sem história. Nada soube do que acontecia na história de sua região. Não tinha ideia do que estava acorrendo quando foi lançado no palco dos grandes acontecimentos da história. E isso teve consequências por vezes complicadas”.

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Dreher conta que Lutero observou os votos monásticos de agostiniano com exceção de um: o da obediência. “Omonge Luder trajava-se com hábito negro, preso com cinto de couro preto. Sobre ele vestia uma escápula branca. Camisa de lã servia de camiseta. […] Lutero usou o hábitonegro muito tempo após haver rompido com Roma. Um mosteiro, o de Wittenberg, foi sua residência até a morte”. Suas contribuições ao Protestantismo emergiram inicialmente de sua empolgação pela música e pelas letras.Canções compostas por Lutero como o conhecidíssimo “Castelo Forte” continuam sendo cantadas no tempo presente.

Em eruditos como Erasmo, com o qual teve controvérsias sobre a concepção do “livre-arbítrio”, Lutero buscou subsídios para uma melhor compreensão dos textos bíblicos. Porém, ele próprio admitia lutas com os textos sagrados após constatar que as interpretações existentes eram de pouco proveito. Acaba concluindo que era preferível enxergar com os próprios olhos do que com olhos alheios.

Lutero foi um escritor compulsivo, chegando a produzir grande volume de publicações anuais. Detinha um vocabulário riquíssimo. Sua habilidade na escrita era reconhecida inclusive por seus adversários.

O ano de 1520 seria marcado pelos principais tratados que iriam caracterizar os princípios da teologia protestante. “Do cativeiro babilônico da igreja” pode ser considerado o texto mais relevante. Nele Lutero denuncia o despotismo do papado e propõe a reforma. Mais tarde, em fase que Dreher considera como senil, Lutero produziria alguns textos comprometedores, principalmente direcionados a camponeses e judeus. O texto sobre os judeus teve reflexos dramáticos no século XX e serviu como pretexto para estimular o antissemitismo. 

Em seus escritos, Lutero costumava contar com um auxiliar hábil e de grande erudição que conseguia ser até mais arguto e duro do que ele próprio. Trata-se de Filipe Melanchthon, humanista e discípulo de Erasmo. “Dominava o grego, conhecia as fontes para os estudos de Teologia, e Lutero dobrou-se aos seus conhecimentos, vendo nele também aquele que poderia continuar sua obra, caso viesse a falecer”.

Na Dieta de Worms, diante do imperador Carlos V, instado a revogar seus escritos, Lutero se posicionaria definitivamente a respeito dos mesmos. Dreher transcreve a posição do reformador: “[…] estou convencido pelas passagens da Sagrada Escritura que mencionei, e minha consciência está presa à palavra de Deus, e não posso nem quero revogar qualquer coisa, pois não é sem perigo nem salutar agir contra a consciência. De outra maneira não posso; aqui estou, que Deus me ajude amém”.

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