Elio Migliorança

Quem multará o governo?

O tema top da semana saiu da esfera política e migrou para as estradas do Brasil. Em vigor a lei que veio para infernizar a vida dos brasileiros e engordar o caixa dos governos, aquela que obriga os motoristas a trafegarem com os faróis ligados durante o dia. É tema polêmico e que promete bons debates entre os favoráveis e os contrários à medida.

Para argumentar com clareza e discernimento é preciso levar em conta as causas dos acidentes. Estatística publicada pela Polícia Rodoviária de São Paulo mostra que a maioria dos acidentes naquele Estado, onde estão as melhores rodovias do país, acontece em pista dupla e durante o dia. Pesquisas nacionais apontam como principais causas dirigir em alta velocidade, ultrapassar em local proibido, dirigir alcoolizado ou falando ao celular. A soma de duas destas causas potencializa o efeito destruidor do motorista, pois quem está alcoolizado dirige em alta velocidade ou ultrapassa em local proibido, e quem fala ao celular enquanto dirige não presta atenção ao que acontece na rodovia.

Também aparecem nas estatísticas pistas defeituosas, chuva ou neblina. O detalhe é que a chuva e a neblina que reduzem a visão do motorista representam uma porcentagem mínima na carnificina em que se transformaram as estradas do Brasil onde morrem mais de 50 mil pessoas por ano.

Se levarmos em conta as estatísticas, concluiremos que os faróis acesos não fazem a diferença que querem fazer-nos acreditar. Quem está batendo palmas e felizes da vida são os governadores, que terão significativo aumento de receita com as milhares de multas já aplicadas em pouco mais de 15 dias de vigência da nova lei.

A pergunta que não quer calar: se o cidadão que não cumprir a lei será multado, quem vai multar os governos quando eles se omitirem de sua responsabilidade na conservação das estradas ou por não aplicarem os recursos destinados à construção de novas rodovias? Para onde vai o dinheiro das multas? Quem multará os deputados por não alterarem a nossa legislação para acabar com a impunidade dos crimes de trânsito? Sim, porque quando um motorista dirige alcoolizado, falando ao celular, em excesso de velocidade ou ultrapassando em local proibido e mata um inocente que vinha em sentido contrário, isso não é acidente, é crime e como tal deveria ser tratado.

O que temos visto é a revoltante cena dos criminosos do trânsito, matarem inocentes, destruindo famílias inteiras, aí são detidos, pagam fiança e respondem o processo em liberdade. Se a legislação fosse adequada e resultasse em punição severa para este tipo de crime, certamente o respeito à vida do próximo seria levada mais a sério. A impunidade tem estimulado a irresponsabilidade nas rodovias do país.

Se o farol ligado fizesse grande diferença, não seriam as motocicletas as campeãs disparadas em acidentes no Brasil, já que para as motos o farol ligado sempre foi obrigatório. Enquanto aqui o debate continua, eu estou de malas prontas para voar para o outro lado do mundo, em visita aos países escandinavos, onde quero conhecer os costumes, a cultura, a organização política, econômica e social de países com milhares de anos de história, conhecimento que vou partilhar com todos ao retornar no mês de agosto. Fiquem com Deus, paz e harmonia para todos.

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