Copagril
Elio Migliorança

RAZÕES QUE A PRÓPRIA RAZÃO DESCONHECE

Aprovada pela Assembleia Legislativa e sancionada pelo governador, foi publicada no Diário Oficial do Estado no ultimo dia 11 de março a lei que autoriza a criação de auxílio moradia para juízes e desembargadores no Paraná. Juiz de Direito é aquele que prestou concurso público e uma vez investido da função, o cargo é vitalício, sem aquele estresse de quem na iniciativa privada pode ser dispensado a qualquer momento. Quanto ao salário, sabemos que a maioria dos juízes ganha além de R$ 20 mil mensais. Quais as razões que levaram os deputados estaduais a aprovar auxílio moradia para quem ganha o suficiente para pagar o seu aluguel? Seria esta uma classe muito sofrida e que precisa de socorro financeiro? E como ficam aqueles que residem em cidades onde o município construiu casa para o juiz? Os deputados conhecem a realidade de outras classes trabalhadoras, que precisam tirar o pão da boca dos filhos muitas vezes para pagar o aluguel do seu barraco? Se todos somos iguais perante a lei, como ficam os demais funcionários públicos do Estado, não possuem eles também direito a auxílio moradia? Confio na lisura, competência e seriedade dos juízes do Estado, afinal não se tem notícias de que algum juiz tenha “pisado na bola” ou se deixado corromper, mas não estariam os deputados aprovando esta “benesse” esperando encontrar a boa vontade dos juízes caso um dia se encontrem no tribunal? Quando um advogado presta concurso para ser juiz, sabe do salário que vai ganhar, da estabilidade no cargo, do poder que vai exercer e também do ônus que o cargo impõe, portanto ninguém chega lá iludido com relação à realidade da profissão. É por isso que acredito que os deputados possuem razões, que a própria razão desconhece. Alguns dizem que o pagamento será feito pelo próprio Poder Judiciário, mas não esqueçamos que o dinheiro deles é tirado do imposto que pagamos. E o governador, por que não se negou a sancionar o projeto, deixando o ônus para a Assembleia Legislativa? Medo do futuro? Comparando isso com o programa “Mais Médicos” do governo federal, pode o Judiciário estar abrindo um precedente perigoso. Quando os médicos começaram a cobrar muito caro para ir trabalhar no interior, o governo resolveu importar médicos a um custo menor. Se aplicar a mesma regra para o Judiciário, logo estaremos importando juízes chineses, japoneses, árabes e cubanos. Pensando bem, o governo também tem razões que a razão desconhece e este risco está descartado. Os médicos estrangeiros aplicam aqui o que aprenderam lá. Se os juízes fizessem a mesma coisa, os cubanos mandariam prender todos os que ousassem criticá-los. Os árabes mandariam cortar as mãos dos ladrões, e os chineses fuzilariam os corruptos e cobrariam a bala da família dos condenados. Já os japoneses obrigariam os ladrões do dinheiro público a se suicidarem. Medidas como estas tomadas pela Assembleia Legislativa e muitas outras criadas pelo Congresso Nacional estão dividindo este país em classes distintas: uma classe superior, cheia de privilégios, altos salários, mordomias, aposentadorias milionárias, salários indecentes, pois os valores são uma afronta ao bom senso e um escárnio contra os miseráveis. E o povão pagando a conta com os impostos mais altos do mundo. 
* O autor é professor em Nova Santa Rosa
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