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Tarcísio Vanderlinde

Reféns na guerra de facções

É sabido que os escritos de Flávio Josefo são considerados relevantes para compreensão de muitas passagens bíblicas. Com relação aos paralelos possíveis de serem traçados com o Novo Testamento, valem os destaques do autor sobre o reinado de Herodes, o Grande, à época do nascimento de Jesus.

Herodes permaneceu 35 anos no poder e seu reinado foi caracterizado por obras suntuosas, como foi o caso do embelezamento e ampliação do templo judaico. Contudo, seu período também foi marcado por insana crueldade, não poupando em condenar à morte sua própria esposa e dois de seus filhos. No finalzinho do reinado tentou caçar o menino Jesus, temendo que este pudesse colocar em risco seu poder.

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Sete décadas após, por ocasião do cerco de Jerusalém pelas tropas romanas, o magnífico templo restaurado por Herodes se encontrava na iminência de ser destruído. A tensão em Jerusalém, todavia, era muito mais estimulada pela disputa interna entre facções do que pela ameaça do inimigo acantonado no Monte das Oliveiras.

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Josefo destaca a crueldade da guerra doméstica que ocorria entre as muralhas da cidade, a ponto de mulheres e idosos desejarem se entregar aos romanos, se é que tivessem oportunidade. Alguns poucos, arriscando a própria vida, conseguiam fugir da guerra de facções e se entregar à “segurança” dos romanos. Ao constatar, inclusive, práticas de canibalismo em decorrência da fome ocasionada pelo cerco, Josefo descreve a dramática situação:

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“No meio de tantos males que afligiam Jerusalém de todos os lados e que tomavam aquela infeliz cidade como um corpo exposto ao furor das feras mais cruéis, os velhos e as mulheres suspiravam pelos romanos e desejavam ser libertados por uma guerra estrangeira das misérias que aquela guerra doméstica os fazia sofrer”.

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Josefo conta que qualquer resolução que tomassem para fugir não achavam meios de executar o plano, e potenciais fugitivos eram considerados inimigos. Observa que, sem êxito, Tito promovera várias manobras militares no intuito de convencer os facciosos a se renderem e atribui a estes o real motivo da queda de Jerusalém. Em síntese, a guerra de facções intramuros foi decisiva para a vitória dos romanos:

“Ainda que os romanos estivessem acampados às suas portas e estivessem organizando o assédio, sua animosidade não cessava. Eles reuniam-se somente algumas horas para se opor a seus inimigos comuns e recomeçavam imediatamente a luta voltando suas armas contra si mesmos, como se, para ser agradáveis aos romanos, tivessem conjurado sua própria perda”.

 

O autor é professor sênior da Unioeste

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tarcisiovanderlinde@gmail.com

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