Arno Kunzler

Reflexão política…

Sempre dizem que “nós rondonenses” somos mais politizados que as pessoas das outras comunidades da região – isso é praticamente consenso em toda região.
Que aqui as pessoas votam certo, sempre elegem seus representantes – desde 1974, o município nunca deixou de ter um deputado, quase sempre teve dois.
Que os prefeitos escolhidos, tanto pelo voto direto como por indicação, no tempo do regime militar, sempre foram muito bem, fazendo um trabalho diferenciado.
Muitas afirmações desse tipo parecem coerentes e têm lá seu fundamento.
De fato, Marechal Cândido Rondon se destaca em várias questões importantes. Mas neste espaço queremos insistir num ponto que muitas vezes não parece, o que de fato é.
Será que podemos mesmo ter orgulho de tudo isso e não percebemos que, muitas vezes, esse orgulho bairrista tapa nossos olhos para questões que ficam se arrastando por décadas e não conseguimos resolvê-las?
Vejamos: semana passada foi inaugurada a primeira parte da rede de esgoto do município, iniciado em 1982, 31 anos atrás e vai atender apenas uma parte da cidade, para decepção do próprio prefeito Moacir Froehlich, externada por ele mesmo, já que não atende a parte que mais precisa do esgoto. A que mais precisa é o centro, que não foi contemplado nesse projeto.
Uma rápida passagem de olho sobre alguns pontos da cidade nos leva a um parque industrial iniciado em 1980, chamado de parque industrial número um, com pelo menos metade do espaço subutilizado e outra grande parte sem nenhuma utilização, inclusive com infraestrutura precária.
Mais um giro, encontra-se a delegacia de polícia e o cadeião, com mais de 140 presos empilhados, onde deveriam ter no máximo 20 ou menos. Essa delegacia com a cadeia tem mais de 40 anos, e pelo menos umas 30 reformas.
Naquele tempo na cidade era preso uma ou duas pessoas por mês, hoje isso acontece por dia.
Não pode ser orgulho para ninguém ver o estado em que se encontra a delegacia e a cadeia do município.
No Poder Judiciário, pois bem, há pouco tempo desembargadores foram homenageados com honrosas recepções para comemorar a conquista do novo Fórum. O atual foi construído às pressas porque o anterior foi destruído por um incêndio, cujo mandante até hoje não foi comprovadamente condenado. Mas agora nosso Fórum não será construído, foi simplesmente riscado do mapa de prioridades do Tribunal de Justiça. E daí, vai ficar tudo assim?
Girando mais um pouco percebemos que o contorno sul da cidade há 20 anos não recebe manutenção simplesmente porque, pasmem, durante todo esse tempo a prefeitura e o Estado discutem de quem é a responsabilidade. E os caminhões só têm um caminho: pelo centro da cidade.
A Ciretran é outro lugar que não pode orgulhar os rondonenses. Espaço para treinamento das autoescolas está sendo disputado com os moradores de algumas ruas, que são obrigados a aceitar sua rua como pista de treinamento.
Nosso aeroporto foi construído em 1982, não serve pra muita coisa, já que temos poucas aeronaves e as que temos não fazem trabalho coletivo, apenas interesses específicos, mas seu estado é deplorável, além de ter virado depósito de carros batidos pela Polícia Rodoviária Estadual que ali foi alojada de forma muito precária, depois que a Federal assumiu o posto de Quatro Pontes.
Por falar em posto da Polícia Rodoviária Estadual, é admissível que sua construção seja feita através de doações? Isso mesmo, doações da comunidade. O sargento Elias, abnegado policial que é, e ciente que se não o fizer não sairá do aeroporto por muito tempo, “passa o chapéu” para pedir donativos.
Sem contar que o nosso lindo Centro de Eventos, um dos projetos arquitetônicos mais bonitos do Brasil, há mais de uma década concluído, um verdadeiro cartão postal que poderia sim orgulhar os rondonenses, continua sem uma única obra de ajardinamento, o que indiscutivelmente lhe deixa muito pobre e com a imagem prejudicada.
E o que dizer do nosso terminal turístico de Porto Mendes, na década de 80 festejado como nova alternativa para o desenvolvimento da região, especialmente um despertar do nosso turismo.
E o Museu de Porto Mendes?
O que dizer da Casa Gasa, que fechou as portas, logo depois de ser aberta ao público, numa tentativa de um grupo de idealistas que planejava resgatar essa riquíssima referência cultural, sem sucesso, o que não só os proprietários, mas toda comunidade regional tem que lamentar.
Vendo tudo isso assim, sem olhar político e apaixonado que normalmente desvirtua o sentido das colocações, será que somos mesmo um município tão politizado, será que podemos ter orgulho das nossas ações?
Ah, mas também tem as coisas boas, essas vamos refletir num próximo artigo.

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