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Gustavo Pedroso

Renda fixa: a porta de entrada para seus investimentos (parte 1)

Ultrapassar a barreira da poupança e entrar de fato no mundo dos investimentos é simples, mas não é uma tarefa fácil para a maioria das pessoas. O caminho natural dessa transição passa primeiro pela renda fixa, mas, ao se deparar com tantas opções de produtos, o investidor iniciante tende a ter, à primeira vista, uma aversão ao mercado financeiro.

É verdade que os produtos financeiros são verdadeiros emaranhados de letras e siglas (CDB, CDI, LCI, LCA LC, LF, Selic, …), um convite à repulsa. Entretanto, buscarei neste texto simplificar estes termos, demonstrando, do ponto de vista do planejamento de objetivos e prazos de aplicação, os principais produtos de renda fixa emitidos por bancos e financeiras e para quais perfis de investidor são mais indicados.

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Mas antes de falarmos dos produtos, vale definir alguns termos importantes que utilizaremos:

 

  • Reserva de emergência: valor financeiro equivalente a, no mínimo, seis meses das despesas mensais, que deve estar aplicado em produtos de disponibilidade imediata (alta liquidez), isto é, com possibilidade de resgate no mesmo dia ou em um dia útil, que rendam mais do que a inflação ou, pelo menos, 100% do CDI.

 

  • Liquidez: possibilidade de converter um ativo em dinheiro rapidamente, sem que isso incorra em perda significativa do valor.

 

  • Taxa Selic: é a principal taxa de juros da economia brasileira, definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central em reuniões realizadas a cada 45 dias. É utilizada pelo governo federal para remunerar os bancos que emprestam dinheiro entre si por meio de títulos do Tesouro Nacional.

 

  • CDI: além do uso de títulos do Tesouro Nacional, outra forma de os bancos emprestarem dinheiro entre si é por meio do CDI, título que significa Certificado de Depósito Interbancário. O CDI tem características semelhantes a um CDB (Certificado de Depósito Bancário), pois também é emitido por instituições financeiras. A principal diferença é que o CDI é um título somente “de banco pra banco”, por meio do qual emprestam dinheiro uns aos outros em operações de curtíssimo prazo, normalmente de um dia. A taxa CDI (ou taxa DI) que os bancos cobram para emprestar dinheiro entre si é utilizada como base de comparação (benchmark) e remuneração para a maioria dos produtos financeiros. É muito comum dizer, por exemplo, que um produto rendeu “100% do CDI”. Outra informação importante é que a taxa CDI acompanha a variação da taxa Selic. A saber, quando escrevo este artigo, a taxa Selic está em 2,25% ao ano, enquanto a taxa Selic está em 2,15% ao ano.

 

  • Pós-fixado: investimento cuja rentabilidade é atrelada a um índice ou indicador, em que só se saberá o rendimento na data de vencimento ou de resgate.

 

  • Prefixado: investimento cuja rentabilidade é previamente definida e conhecida no momento da aplicação.

 

  • FGC (Fundo Garantidor de Crédito): entidade privada, sem fins lucrativos e mantida com aportes mensais das instituições financeiras do país, que permite recuperar, em caso de falência da instituição emissora do título, as aplicações em valores até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira, até o limite máximo por CPF de R$ 1 milhão. É importante salientar que a escolha por produtos de instituições de maior ou menor porte vai influenciar na rentabilidade dos produtos. Em geral, instituições menores tendem a ter produtos com taxas mais rentáveis, como forma de atrair e compensar o investidor pelo risco mais alto que representam em relação às instituições de grande porte.

 

Quando se fala em investimentos, não há uma definição única e correta do que é curto, médio e longo prazo. Para cada classe de ativos (renda fixa, renda variável, etc.) ou mesmo para cada pessoa essa percepção temporal pode ser totalmente diferente. Para efeito deste artigo, utilizaremos as seguintes definições:

 

  • Liquidez imediata: prazo de resgate no mesmo dia ou em um dia útil.

 

  • Curtíssimo prazo: prazo de resgate de até seis meses.

 

  • Curto prazo: investimentos com prazo de resgate de seis a 12 meses.

 

  • Médio prazo: prazo de resgate de 12 a 24 meses.

 

  • Longo prazo: prazo de resgate acima de 24 meses.

 

Finalmente, vamos agora entrar na descrição e nas principais características dos produtos de investimento.

Começando pela reserva de emergência, os produtos mais amplamente utilizados são:

 

  • Tesouro Selic: é a aplicação mais segura e conservadora do mercado financeiro – mais segura do que a poupança, inclusive -, pois é um título público do Tesouro Direto emitido pelo governo federal. Quando você investe no Tesouro Direto está emprestando dinheiro para o governo. Sendo um título pós-fixado, a rentabilidade do Tesouro Selic acompanha a variação da própria taxa Selic, que hoje está em 2,25% ao ano. Para aplicações até R$ 10 mil, o Tesouro Selic não cobra taxa de custódia. Acima desse valor, é cobrada taxa de 0,25% ao ano sobre a rentabilidade. O resgate desse título se dá em um dia útil (D+1), isto é, pedindo o resgate hoje você receberá o dinheiro na conta de sua corretora ou banco no próximo dia útil seguinte. Há a incidência de imposto de renda (IR) sobre a rentabilidade cobrada do investidor no momento do resgate. Sobre os resgates antes de 30 dias corridos incide também a cobrança de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).

 

  • CDB com liquidez diária: CDB significa Certificado de Depósito Bancário. É um título de renda fixa emitido pelos bancos, geralmente de perfil conservador, dependendo da qualidade e do risco da instituição, e que conta com a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para aplicações de até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira. Neste caso, para a reserva de emergência, o CDB com liquidez diária permite o resgate no mesmo dia útil e deve ter a rentabilidade mínima aceitável de 100% do CDI. Sobre o CDB também incorre a cobrança de imposto de renda e IOF (até 30 dias) sobre o rendimento, no momento do resgate.

 

  • Fundo DI: é um fundo de investimento de renda fixa que deve investir, pelo menos, 95% do patrimônio em títulos atrelados à Selic e ao CDI. Para compor a reserva de emergência, o fundo DI deve ter resgate em até um dia útil (liquidez imediata) e entregar rentabilidade mínima bruta (antes da cobrança de IR) de 100% do CDI. Fuja dos fundos DI que cobram taxa de administração! Como se trata de um fundo passivo, ou seja, que visa apenas acompanhar a rentabilidade do CDI, não faz sentido pagar taxa a um gestor que não tem praticamente trabalho ativo algum. No momento do resgate, incide a cobrança de imposto de renda e, para resgates antes de 30 dias, IOF. Importante destacar que fundos de investimento não contam com a proteção do FGC.

 

Para o curto prazo (resgate em até 12 meses), os produtos mais conhecidos são:

 

  • CDB (Certificado de Depósito bancário): aqui falamos dos CDBs sem a possibilidade de resgate antecipado e sem liquidez diária. Podem ser pós-fixados ou prefixados, e contam com resgate do valor principal acrescido dos juros apenas no vencimento. Por conta do prazo maior de resgate (menor liquidez), costumam render mais do que os CDBs de liquidez diária. O custo incidente é somente a cobrança de imposto de renda sobre o rendimento, realizada no vencimento.

 

  • Fundo de renda fixa: são fundos que investem pelo menos 80% do patrimônio em ativos atrelados à taxa de juros (CDI/Selic) e/ou a índices de preços, como IPCA, por exemplo. Como podem ter na carteira títulos com mais risco de crédito e, alguns casos, usar derivativos para proteger a carteira, o ideal é aplicar nestes produtos com um horizonte de, pelo menos, um ano.

 

  • LCI (Letra de Crédito Imobiliário): título de renda fixa com lastro no mercado imobiliário. Isto significa que, quando aplicamos em uma LCI, o dinheiro é direcionado para financiamentos, reformas e construções de imóveis. Uma das características da LCI é o prazo de carência que, por determinação do Conselho Monetário Nacional (CMN), é de 90 dias para resgate. Em geral, tem resgate apenas no vencimento. As vantagens em se investir numa LCI são a isenção da cobrança de imposto de renda para pessoas físicas e de IOF, além da proteção pelo FGC. Podem apresentar rentabilidade pós-fixada, prefixada ou híbrida (composta por uma parte pós-fixada e uma parte prefixada, como “IPCA + 5%”, por exemplo).

 

  • LCA (Letra de Crédito do Agronegócio): apresentam as mesmas características das LCIs. A diferença está na destinação dos recursos. Enquanto os recursos captados na LCI são usados no setor imobiliário, os valores dos investimentos em LCA são direcionados ao financiamento de atividades ligadas ao agronegócio.

 

Para resgate acima de 12 meses (médio e longo prazo), além dos já citados CDBs, LCIs e LCAs, temos:

 

  • LF (Letra Financeira): título de renda fixa para quem busca rentabilidades maiores a longo prazo, superiores à média dos produtos de renda fixa. Outra vantagem da LF é que, apesar de haver a incidência de imposto de renda, ele caíra sempre na menor alíquota possível, de 15% sobre os rendimentos, para resgates com prazos acima de 24 meses. A rentabilidade costuma ser pós-fixada e expressa em percentual do CDI, mas também pode ser prefixada ou híbrida. As desvantagens da Letra Financeira são a baixa liquidez, com vencimento sempre acima de 24 meses e sem possibilidade de resgate antecipado, valor de aplicação mínima elevado, de R$ 50 mil, e ausência de proteção do FGC.

 

  • LC (Letra de Câmbio): ao contrário do CDB, da LCI e da LCA, a Letra de Câmbio não é emitida por bancos, mas por financeiras, como sociedades de crédito, de financiamento e de investimento, mas também possuem garantia do FGC. Por serem emitidas por instituições menos “robustas” do que os grandes bancos, geralmente as LCs costumam pagar taxas mais atrativas do que os CDBs, de forma a compensar o risco maior que o investidor assumirá ao investir nestes produtos. A forma de rentabilidade pode ser pós-fixada, prefixada ou híbrida, e sobre ela incidem imposto de renda (retido na fonte) e IOF.

 

Como vimos, existem diversas possibilidades de produtos de investimentos na renda fixa, para todos os tipos de bolsos e perfis de investidor, que trarão maior retorno financeiro do que a poupança, e com a mesma ou até maior segurança, como é o caso do Tesouro Selic.

No próximo artigo continuaremos falando sobre outras opções em renda fixa, com foco em produtos de emissão de instituições não financeiras, como CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e Debêntures.

Até lá!

 

Gustavo Pedroso é economista, investidor profissional e assessor de investimentos com atuação em Curitiba, Marechal Cândido Rondon e região Oeste do Paraná

gustavo.pedroso@cordierinvestimentos.com.br

 

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