Arno Kunzler

Ruptura democrática

A inevitável ruptura democrática mencionada pelo deputado Eduardo Bolsonaro, ao se referir às dificuldades de governar o Brasil, tem dois lados.

A primeira, e é nela certamente que se baseia o deputado, está no descrédito das nossas instituições e na dificuldade de dimensionar qual o campo de ação de cada uma. Isso é fato.

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E convenhamos, não foi só o presidente Jair Bolsonaro que fez as instituições democráticas perderem credibilidade.

Elas mesmas estão fracassando ao não entregar ao povo o que prometem e ao gerar seus benefícios, que não se estendem à maioria dos brasileiros.

O mundo visto pelos candidatos em campanha não é o mundo real praticado pelos governantes eleitos e isso se aplica ao Executivo, Legislativo e também ao Judiciário e ao Ministério Público, que não são eleitos.

Assim, Congresso, Supremo Tribunal Federal (STF) e imprensa caíram em descrédito.

O Executivo de hoje, não o de ontem, se posiciona fora deste contexto, pelo menos enquanto durar a esperança de que este governo seja capaz de mudar o atual estado de coisas.

É baseado nesse sentimento que o deputado Eduardo Bolsonaro preconiza que “é quase inevitável que haja a ruptura”.

E aí precisamos entender o que significa ruptura.

A ruptura neste caso significa o fracasso da lei e da ordem, a desobediência constitucional, impondo-se uma nova ordem política, em que eventualmente o presidente deve ter força para não se submeter a decisões do Judiciário e do Congresso, talvez amparado pelas Forças Armadas.

Se podemos entender o que Eduardo Bolsonaro quis dizer, é mais ou menos isso.

Para os aliados do presidente essa é a solução para o Brasil.

Consertar os desmandos com a mão pesada das Forças Armadas e criar um ambiente identificado com os interesses do povo brasileiro.

Mas, e se não for? E se esse avanço tiver outras consequências, como, por exemplo, tomar o poder e governar à força, tipo uma ditadura sem prazo para terminar?

Qual é, afinal, a intenção do nosso presidente e seus aliados com esses protestos semanais em que nitidamente pedem o fechamento do Congresso e do STF e, não menos contundentes, atacam a imprensa de modo geral, em especial a Rede Globo?

Como reagirão as forças constitucionais diante de tais manifestações acompanhadas pelo nosso presidente sem nenhum constrangimento?

Domingo (31) tivemos um ensaio que pode ser apenas o começo de um tempo nervoso, poucas vezes, ou nunca, visto no Brasil.

Se os bolsonaristas não cessarem os protestos em Brasília, é possível que os antibolsonaristas repitam movimentos parecidos em todo o país com possibilidades reais de confrontos violentos e acirramento da crise política.

A impressão que passa é que o próprio governo estimula o caos social, colocando seus aliados nas ruas e provocando reações, criando um clima de confronto permanente, de desobediência e desafio às leis, para deste ambiente surgir a inspiração legal e, depois, buscar a solução no Exército.

Como cidadão, eleitor, observador, crítico, bolsonarista ou não, você vê essas movimentações políticas no Brasil?

Estamos conscientes daquilo que queremos e como queremos que isso seja alcançado?

Estamos conscientes do que poderá acontecer no Brasil a partir dessa “ruptura”?

 

Arno Kunzler é jornalista e diretor do Jornal O Presente e da Editora Amigos da Natureza

arno@opresente.com.br

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