Brincando na Praça 2019
Dom João Carlos Seneme

Sede misericordiosos como o Pai dos céus é misericordioso

Há três domingos, com a proclamação das bem-aventuranças, tivemos a oportunidade de refletir sobre o tema do cristão quanto ao uso da força e da violência. Suas palavras se tornam cada vez mais exigentes e difíceis de compreender. A conclusão é a recordação de nossa vocação de sermos criados à imagem e semelhança de Deus, por isso a ordem de Jesus: “Sede perfeitos como o Pai do céu é perfeito”. Ele coloca diante de nós frases que conhecemos bem: “Olho por olho, dente por dente”; “oferecer a outra face”; “se alguém quer sua túnica, dá-lhe também o manto”. Isso nos desconcerta porque é contrário à nossa “sabedoria” humana! Jesus nos mostra que a vida é cheia de contradições, que precisamos dar pequenos passos e aprender a vencer o mal com o bem. É muito difícil, mas não é impossível! Ele deu o exemplo: “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem”.A missão de Jesus, ao se tornar um de nós, foi a de reconciliar os seres humanos entre si com o Pai. “Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que me enviou. E esta é a vontade d’Aquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que Ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Pois esta é a vontade do meu Pai: que todo aquele que contempla o Filho e n’Ele crê, tenha a vida eterna” (Jo 6,37-40). Desde o início da humanidade, a tendência de viver desunido pelo ódio e pela inimizade é uma realidade. A capacidade de viver a unidade, a tolerância, o respeito à diversidade, enfim, o amor, pode ser adquirido pela aprendizagem. Se se descuida, a violência toma conta dos corações das pessoas e o sentimento de vingança dá lugar a gestos da mais total crueldade. Os acontecimentos estão aí para comprovar do que o ser humano é capaz!Hoje, no Evangelho, Jesus desafia os seus discípulos a pensar e agir de modo diferente e nos propõe o paradigma do verdadeiro cristão: o Reino dos Céus é incompatível com o ódio e a violência. Jesus vai mais além quando afirma que é preciso amar os que nos odeiam! Poderíamos dizer: é impossível agir assim! Aí o texto do Evangelho, cheio de antíteses e contrastes: inimigos, fazer o bem, os que nos odeiam, bendizer, os que nos amaldiçoam, rezar, os que nos maltratam vem em nosso socorro.Poderíamos nos perguntar: “Por que o homem deve opor-se aos seus instintos mais imediatos que o impelem a reagir à ofensa, a revidar e a vingar-se”? A resposta é porque somente assim se é filho do Pai celeste, que faz surgir o sol sobre os maus e sobre os bons, faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Nossa referência será sempre o Pai do céu que é bom, misericordioso, lento à ira e incapaz de negar o perdão a quem o suplica de coração puro. Sob o olhar da fé não existe outra saída para a humanidade. Podem até parecer ingênuas as palavras de Jesus diante de um mundo violento: “Amai vossos inimigos e fazei o bem aos que vos perseguem”. Porém, talvez seja a palavra que mais precisamos ouvir nestes momentos em que, imersos na perplexidade, não sabemos o que fazer de concreto para que a humanidade caminhe em outra direção, deixando de lado a violência, a vingança, a intolerância. Há em Jesus uma convicção profunda: não se pode vencer o mal à base do ódio e da violência. O mal só é vencido pelo bem. Isso não significa tolerar as injustiças e se intimidar na luta contra o mal, mas promover o cuidado para não destruir pessoas.Na oração do “Pai-Nosso” vamos dizer a Deus: “Perdoai as nossa ofensas, como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Para que não se torne uma condenação para nós, devemos nos preparar bem para o que vamos dizer, e depois rezar de coração aberto e generoso.
* O autor é bispo da Diocese de Toledo
revistacristorei@diocesetoledo.org

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