Dom João Carlos Seneme

Sede perfeitos como o Pai dos céus é perfeito

Há três domingos, com a proclamação das Bem-aventuranças, tivemos a oportunidade de refletir sobre o tema do cristão quanto ao uso da força e da violência. As palavras de Jesus se tornam cada vez mais exigentes e difíceis de compreender. O caminho é recordar sempre nossa primeira vocação: fomos criados à imagem e semelhança de Deus, por isso a ordem de Jesus: “Sede perfeitos como o Pai do céu é perfeito”. Ele coloca diante de nós frases que conhecemos bem: “olho por olho, dente por dente”, “oferecer a outra face”, “se alguém quer sua túnica”, “dá-lhe também o manto”. Isso nos desconcerta porque é contrário à “sabedoria” humana! Jesus nos mostra que a vida é cheia de contradições e precisamos dar pequenos passos, aprender a vencer o mal com o bem. É muito difícil, mas não é impossível! Ele deu o exemplo: “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem”.

A missão de Jesus, ao se tornar um de nós, foi a de reconciliar os seres humanos entre si com o Pai. “Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Pois esta é a vontade do meu Pai: que todo aquele que contempla o Filho e nele crê tenha a vida eterna” (Jo 6,37-40).

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Desde o início da humanidade, a tendência de viver desunido pelo ódio e pela inimizade é uma realidade. A capacidade de viver a unidade, a tolerância, o respeito à diversidade, enfim, o amor, pode ser adquirido pela aprendizagem. Se se descuida, a violência toma conta dos corações das pessoas e o sentimento de vingança dá lugar a gestos da mais total crueldade. Os acontecimentos estão aí para comprovar do que o ser humano é capaz!

Hoje, no evangelho, Jesus desafia os seus discípulos a pensar e agir de modo diferente e nos propõe o paradigma do verdadeiro cristão: o Reino dos Céus é incompatível com o ódio e a violência. Jesus vai mais além quando afirma que é preciso amar os que nos odeiam! Poderíamos dizer: é impossível agir assim! Aí retomamos o texto do evangelho cheio de antíteses e contrastes: inimigos, fazer o bem, amar os que nos odeiam, bendizer os que nos amaldiçoam, rezar pelos que nos maltratam. Poderíamos nos perguntar: por que o homem deve se opor aos seus instintos mais imediatos que o impelem a reagir à ofensa, a revidar e a se vingar?

A resposta é: porque somente assim se é filho do Pai celeste, que faz surgir o sol sobre os maus e sobre os bons, faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Nossa referência será sempre o Pai do céu que é bom, misericordioso, lento à ira e incapaz de negar o perdão a quem o suplica de coração puro.

Sob o olhar da fé não existe outra saída para a humanidade. As palavras de Jesus podem até parecer ingênuas diante de um mundo violento. “Amai vossos inimigos e fazei o bem aos que vos perseguem”. Porém, é a palavra que mais precisamos ouvir nestes momentos em que, imersos na perplexidade, não sabemos o que fazer de concreto para que a humanidade caminhe em outra direção, deixando de lado a violência, a vingança, a intolerância.

Há em Jesus uma convicção profunda: não se pode vencer o mal à base do ódio e da violência. O mal só é vencido pelo bem. Isso não significa tolerar as injustiças e se intimidar na luta contra mal, mas promover o cuidado para não destruir as pessoas.

 

O autor é bispo da Diocese de Toledo

revistacristorei@diocesetoledo.org

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