Brincando na Praça 2019
Elio Migliorança

SEM PALAVRAS

O terremoto no Haiti deixou muita gente sem palavras. Não havia o que dizer diante do horror das imagens exibidas pelas televisões. A morte fez a festa ceifando vidas da forma mais inesperada que se possa imaginar. O choque foi de tal monta que ficamos anestesiados e sem reação. Difícil de compreender e de aceitar se começarmos a rotular pessoas entre bons e maus. Que providência ou casualidade permitiu este ou aquele sobreviver enquanto outros morreram? Em alguns casos foi questão de segundos, pois, conforme relato dos jornais, o militar que acompanhava Zilda Arns em sua palestra se despediu e ao ter andado 100 metros na rua viu os prédios desabando. Velhos e crianças, ricos e pobres, religiosos e leigos, a morte levou todos.
Depois do horror do terremoto, agora vemos a outra face sangrenta da situação: a luta pela sobrevivência faz lembrar o homem das cavernas em que o mais forte dominava o mais fraco. Roubos, assaltos, quadrilhas, saques, é uma selvageria da pior espécie. O povo haitiano sempre foi oprimido e explorado. É um povo sofrido que amarga os piores índices de qualidade de vida, em pleno século XXI, era da tecnologia e do progresso. O mundo produz mais do que consome, mesmo assim muitos morrem de fome. Literalmente como dizem alguns: vendendo o almoço para comprar o jantar.
Depois desta reflexão inicial, cabe a pergunta: afinal, quem somos nós? Quem é o ser humano? Se uma catástrofe como esta se abatesse sobre nosso país, qual seria nosso comportamento?
Eis aí porque muitas pessoas são citadas de forma especial nestes casos, como foi o de Zilda Arns, dos militares e tantos outros heróis anônimos não citados, mas igualmente importantes para muitos flagelados. Há pessoas que respondem ao apelo de Deus com uma generosidade e com uma abnegação que poucos conseguem ter. Poderiam ter procurado uma vida menos árdua, um gênero de vida que lhe deixasse mais tempo para dedicar-se aos seus interesses e desfrutar as alegrias do conforto familiar e material. Em vez disso escolhem o desafio do serviço comunitário, considerando-o uma oportunidade de edificar um mundo melhor para todos. Foi uma mulher de fé, como são de fé todas as milhares agentes da Pastoral da Criança espalhadas pelo Brasil. Admiramos sim seu amor especialmente pelos pobres e pelos que se encontram em situação menos vantajosa. Admiramos seu grande sentido de fraternidade que se estendia aos homens de todas as nações, de todas as religiões e de todas as raças.
Mas, para entender mais facilmente a diferença de pessoas com as mesmas condições, veja o recente caso do assalto contra um agricultor em Maripá. Seis canalhas invadiram sua casa, o assaltaram, foi agredido, baleado e roubado. Sua esposa, em cadeira de rodas a tudo assistiu deitada no quarto, onde o roubo foi consumado. O marido foi para o hospital e um médico foi chamado para atender a esposa inválida em casa. Custo da consulta e corrida cobrados pelo médico? R$ 260. Distância: três quilômetros. Ficou chocado(a) com o valor? Eu também. Esta é a diferença entre pessoas com igual condição e formação.

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