Elio Migliorança

SEU DEDÉ

Em recente viagem pelo Pantanal, conheci seu Dedé, homem simples pouco chegado às leituras, como ele declarou, mas sábio quando fala sobre a vida, sua luta pela sobrevivência e a defesa dos valores que considera a maior riqueza familiar. Ele é um pirangueiro no Pantanal do Mato Grosso do Sul. Pirangueiro é o piloto de barco que trabalha dando apoio aos pescadores que não conhecem o Pantanal, prepara as iscas, varas e demais apetrechos necessários para uma boa pescaria. É o nativo familiarizado com os locais onde há abundância de peixes. Conhece palmo a palmo dos incontáveis canais que interligam os pesqueiros, um labirinto que o Seu Dedé conhece como poucos. Nas aprazíveis horas de pescaria em que o conhecimento de Seu Dedé foi estratégico para conseguir um bom pescado, sorria ao fisgar um peixe graúdo, mas quando o tema era a situação nacional vi uma sombra de tristeza e decepção no rosto daquele pescador.

Eleitor de Lula e Dilma, declarou-se decepcionado com a situação nacional e revoltado por sentir-se traído pelas mentiras na campanha eleitoral. Homem de princípios morais e de palavra honrada, não consegue acreditar que exista gente com tamanha cara de pau para prometer uma coisa e depois fazer tudo ao contrário. Entusiasmou-se com a candidatura de Lula em 2002, conversou com amigos, familiares, colegas de trabalho e até distribuiu propaganda na rua. Era a chance para os trabalhadores e seu Dedé acreditava que a vida melhoraria para todos. Falou que o primeiro mandato de Lula foi muito bom para o trabalhador, mas no segundo percebeu que a corrupção tomava conta do governo. Votou em Dilma porque ficou com medo de perder os benefícios sociais. Quando perguntado sobre o voto pela reeleição de Dilma, confessou que votou nela porque as promessas eram de um Brasil onde todos teriam o melhor em educação, saúde e segurança. Seu Dedé está decepcionado e revoltado com a classe política. Confessa não lembrar de outro tempo em que tantos ladrões foram presos em tão pouco tempo. Lamenta que o futuro de seus filhos possa ser pior do que é o presente para ele. Fala de administração de uma forma tão simples que surpreende: nunca podemos gastar mais do que ganhamos, aumento de impostos é sinal de burrice, afirmou categoricamente, porque somos nós que pagamos a gastança dos grandes.

Seu Dedé quer voltar ao tempo em que o dinheiro valia mais e no fim do mês dava para pagar o mercado, a luz, a água, comprar roupa pros filhos e ainda sobrava pra guardar na poupança uma reserva para uma velhice mais segura. Além de me ensinar como pescar o palmitinho, pintado e tucunaré, Seu Dedé me mostrou a sabedoria e a vida do pirangueiro como ela é. Quando perguntei sobre as pessoas que mais admira no Brasil, veio uma resposta surpreendente. Admirava Joaquim Barbosa, de origem humilde que conseguiu por seu mérito chegar ao Supremo Tribunal Federal e combateu muitos corruptos, mas acha que ele “correu da raia” quando se aposentou aos 59 anos de idade, pois devia ter ficado lá até os 70 anos e fazendo sua parte.

Arrisquei uma nova pergunta: em quem votaria para presidente da República na próxima eleição? Foi direto e indicou Sergio Moro. Seu Dedé revelou o sentimento de milhões de brasileiros, decepcionado, mas ainda acreditando no futuro.

 

* O autor é professor em Nova Santa Rosa

 

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