Copagril
Editorial

Só reações

 

Primeiro Mariana, depois Brumadinho. Precisaram que centenas de vidas fossem ceifadas para que as autoridades brasileiras decretassem o fim das barragens construídas no modelo de alteamento a montante, iguais as que provocaram as duas tragédias em Minas Gerais.

Considerada de maior risco que outros modelos, esse tipo de estrutura ainda é usada no Brasil porque custa mais barato que as demais, que são mais seguras.

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A lei da reação é uma premissa no Brasil. Precisam que tragédias humanas ocorram para que as autoridades deem luz aos problemas que estão no cotidiano das pessoas.

Não são ativos, nem pró-ativos, mas sim reativos. No entanto, há muito tempo sabia-se que essas estruturas não eram as ideais para a segurança dos trabalhadores da mina de minério e das pessoas que vivem nas comunidades em seu entorno. Mesmo assim, e mesmo depois de Mariana, e mesmo depois de fiscalizações que mostravam os riscos iminentes de um rompimento, nada se fez. Esperaram o pior acontecer para reagir.

Engraçado é saber que as grandes multinacionais, que faturam bilhões de dólares por ano, conseguem driblar as controversas leis e a burocracia do Brasil para construir estruturas de risco, enquanto um produtor de peixes demora dez anos para conseguir a licença de instalação de um açude em sua propriedade rural. Para os cidadãos comuns, muitos impedimentos, para os poderosos e multimilionários, facilidade no que deveria ser difícil.

Mas a corda sempre estoura no lado mais fraco. Nesse caso, as mais de 300 pessoas que perderam suas vidas, muitas aliás enterradas para sempre no mar de rejeitos e de irresponsabilidade que jorrou com o rompimento. Famílias inteiras foram dizimadas, sonhos interrompidos, mas não pensaram nisso antes porque a ganância cega os olhos desses gigantescos grupos empresariais e de seus líderes.

É obvio que tragédias acontecem, que novas tecnologias são incorporadas no dia a dia e que as leis precisam se adequar aos momentos, mas custa muito observar as coisas mais triviais para que tragédias não se repitam? Em vários países, por exemplo, essas estruturas de alteamento a montante não são mais permitidas. Na Europa, há duas décadas os agricultores não usam mais agrotóxicos que, por aqui, são os mais comuns, por considerar os altos riscos que esses produtos trazem ao meio ambiente e à saúde das pessoas.

Precisou a Maria da Penha quase ser assassinada para que uma lei protegendo com mais lastro as mulheres fosse criada. Precisaram duas tragédias que jamais serão esquecidas para que as inseguras barragens ganhassem o centro dos debates. O que mais falta acontecer para que as autoridades comecem a ter atitudes que protejam as pessoas antes das tragédias consumadas?

As reações são importantes, mas de maneira geral é preciso ter leis que antecipem problemas, que protejam as pessoas antes do impacto que as tragédias causam, que evitem as tragédias. O Brasil espera uma resposta às famílias enlutadas, mas deve perseguir incessantemente um novo modelo de proteger seus filhos que não inclua somente reação às adversidades.

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