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Tarcísio Vanderlinde

Solidão solidária 

A adoção da quarentena como mecanismo preventivo contra a disseminação do novo coronavírus tem trazido experiências diversas na intimidade de cada um. No âmbito político e econômico ela se revelou de forma polêmica, trazendo confusão e temor entre as pessoas.

Por outro lado, pais que têm que administrar seus filhos em idade escolar tiveram que refletir de forma inesperada sobre o sentido da paternidade e da maternidade em tempos nos quais as práticas de convivência familiar já vinham com histórico de impactos.

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Na maioria dos casos não é possível terceirizar as atividades. Assim, sobra pouco tempo para curtir os benefícios do afastamento temporário e do corre-corre de cada dia. Apesar disso, muitos conseguem aproveitar produtivamente os momentos de isolamento.

O sacerdote holandês Henry Nouwen (1932-1996) tem algumas contribuições sobre a prática da solidão que decorre do isolamento. Em “O paradoxo da solidão” Nouwen fala da importância da atividade laboral à luz da solicitude e da solidão.

Ele conta que alguns anos antes de escrever o livro encontrou um velho professor na Universidade de Notre Dame. Rememorando sua longa vida de ensino, ele havia proferido a ele uma frase com um engraçado lampejo nos olhos: “Estive sempre a queixar-me que meu trabalho era constantemente interrompido, até que lentamente descobri que minhas interrupções eram o meu trabalho”.

Baseados nos ensinos de Jesus Cristo, Nouwen sugere a necessidade de solidão para se pôr a casa em ordem de vez em quando. Ele lembra que o Mestre costumava madrugar e se dirigir a lugares desertos onde fazia suas orações.

A solidão seria capaz de devolver o caráter humano em constante risco de ser desfigurado pelo excesso de distrações que a modernidade costuma oferecer. Além disso, ele considera que, “seja onde for, sabemos que sem um lugar solitário nossas ações rapidamente se transformam em gestos vazios”.

A ânsia de ser útil na sociedade em que se vive move positivamente muitas pessoas, mas só a experiência de solidão é que levaria o sujeito a descobrir que não somos o que podemos conquistar, somos de fato a partir do que nos é dado. É na solidão que se descobre que a vida não é uma propriedade a ser defendida, mas um dom a ser repartido.

É da solidão que pode emergir o cuidado com o outro. Atitude sentida por muitos durante a quarentena. Com a experiência de poder contar com alguém que solidariamente pode encarar conosco a realidade de nossa fraqueza numa atitude humana corajosa de se fazer presente.

 

O autor é professor sênior da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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