Elio Migliorança

SONHO E REALIDADE

A vida é feita de sonhos. Quando criança sonhamos ser adultos. Na juventude nosso horizonte de sonhos se amplia, sonhamos com uma profissão que renda muito dinheiro, com um namorado ou namorada, sonhamos casar, ter uma casa, carro e sermos felizes. E assim parece que o sonho é o combustível que move nossa vida. Muitos sonhos se concretizam e outros se revelam frustração e muitas vezes morte. Se observarmos as estatísticas sobre o número de separações entre casais, elas revelam que muitos sonhos foram desfeitos ao longo do caminho. Sim, porque ninguém ao se casar sonha com a infelicidade e a guerra que se estabelece na vida de muitos casais. Todos sonham ser felizes para sempre. E o “sempre”, às vezes, é muito curto.
Toda esta introdução foi provocada pelas comemorações e homenagens vividas no último final de semana, quando homenageamos nossas mães. Sim, porque ser mãe também é o sonho de muitas mulheres. Sonho que uma vez realizado nem sempre traz consigo a felicidade e realização almejadas. Os jornais de segunda-feira (11) apontaram sete crimes ocorridos no final de semana dedicado às mães, na região Oeste. São sete mães que perderam seus filhos de forma brutal e outras sete mães que se tornam involuntariamente mães de assassinos. Quando estas crianças nasceram, certamente um castelo de sonhos povoou a mente de cada uma delas. Castelo que se desfez por conta de um terremoto violento e destruidor. O material explosivo que alimentou o terremoto da violência terá sido bebida alcoólica, drogas ou algo banal. Os mais informados dirão que uma das mortes foi ocasionada por acidente automobilístico. Determinados acidentes também são assassinatos.
Quando alguém está em excesso de velocidade ou ultrapassando em local proibido e provoca uma colisão, isto não é acidente, é crime mesmo. Acidente podemos considerar quando uma falha mecânica imprevisível provoca uma colisão. Não quando o problema é causado pela “peça” que está atrás do volante. Pois então, quero aproveitar este espaço para lembrar estas e outras milhões de mães espalhadas pelo mundo que foram vítimas das circunstâncias e se tornaram mães de sonhos que não deram certo. E também outras milhões de mães desassistidas pela “sorte”, que, angustiadas, assistem ao pôr do sol com sua família passando fome porque a sociedade se organizou de forma injusta e é incompetente para prover uma condição de vida digna para todos. Mães que morrem nas filas da saúde pública, mães cujos filhos estão presos, mães que foram abandonadas, mães que a cada dia são crucificadas pela vida. Mães que não receberam homenagens, aliás, muitas que sequer sabem o que é uma homenagem. Gente cujo conforto e bem-estar estão muito aquém do que é proporcionado aos animais nas granjas de produção.
Vivemos uma sociedade de desiguais, com nossas classes dirigentes se esbaldando na corrupção, criando uma cultura de morte e, o pior, achando isso tudo muito normal. Vivemos um regime de exceção quando se trata de distribuição de renda. Homenagem às mães não homenageadas e cuja única e última esperança é receber de Deus o merecido prêmio pelas agruras desta vida.

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