Copagril
Elio Migliorança

TEMAS ENTRELAÇADOS

Os fatos se sucedem numa velocidade compatível com o tempo que vivemos. Como as informações são instantâneas, a quantidade é tal que nos dificulta parar e analisar com olhar mais atento o que está acontecendo ao redor. Mas dois fatos recentes que vão pisar com força no sistema nervoso nacional merecem uma avaliação mais criteriosa, pois terão influência na vida nacional dos próximos anos. Primeiro foi a criação da Comissão da Verdade. E aí temos campo para uma discussão filosófica sem fim. O que é a verdade? Esta pergunta já foi feita por Pôncio Pilatos a Jesus, dois mil anos atrás, quando Jesus disse que veio ao mundo para dar testemunho da verdade. E pelo que consta na Bíblia, Jesus não respondeu à pergunta. Pois bem, qual verdade será buscada por esta comissão? A verdade que interessa aos perseguidos de então ou a verdade daqueles que se utilizaram do poder para sufocar movimentos de contestação ao governo, agredindo o direito à vida e à liberdade? Será buscada também a verdade para os familiares daqueles que morreram nos atentados patrocinados pelos revolucionários ou isto não faz parte da verdade?
Vem de longe a afirmação de que a verdade é relativa.  Por exemplo, para o cristão, a verdade é que Deus existe, já para o ateu, a verdade é que Deus não existe. Portanto, qualquer verdade sempre depende de que lado você está olhando. Será uma discussão sem fim, onde cada um dos lados acreditará estar com a verdade.
Mas se a comissão vai investigar atos de autoritarismo, ou abuso de autoridade, como quiserem, não podemos deixar de observar que um tema bem atual está intimamente ligado a esta questão. É a nova lei do Código Florestal. O texto foi construído após milhares de dias de debates. Teve a participação popular nos quatro cantos do país através das audiências públicas nas quais milhares de brasileiros deram sua opinião. Foram milhões de quilômetros rodados pelos parlamentares. Inclusive o relator, deputado Aldo Rabelo, foi à Europa para conhecer experiências de primeiro mundo nesta área, para então, finalmente, o projeto ser aprovado pelo Congresso Nacional e enviado para a sanção presidencial. Qual foi a surpresa? Parte do projeto foi vetado e editada uma medida provisória para complementar a nova lei. Para que serve, então, o Congresso Nacional? Para que serviu a mobilização, se sua majestade, a imperatriz, decide sozinha? Por que se gastou tudo aquilo para construir um projeto se, no final, uma pessoa, assessorada não se sabe por quem, decidiu sozinha o que é melhor para o Brasil e para os brasileiros? Não é este também um gesto autoritário? Somos uma democracia onde o povo decide através de seus representantes ou uma monarquia onde sua majestade, a imperatriz, como boa mãe, sabe melhor que todos o que é bom para seus filhos, no caso seus súditos?
Sei que no Congresso Nacional há joio e trigo, mas estão lá pelo voto da maioria, portanto, nossos legítimos representantes. Quem busca a verdade não pode ser autoritário, as duas coisas não combinam. Por que será que os meios de comunicação não divulgam que 80% das universidades federais do país estão em greve? O dinheiro do governo fala mais alto do que esta verdade?

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