Silvana Nardello Nasihgil

Um dia de cada vez e Deus em todos eles

Abro o Facebook e lá vem ele: no que você está pensando? Eu respiro fundo, uma vez, duas vezes, leio de novo e penso: você quer mesmo saber o que estou pensando? De enxerido ou por que está sendo parceiro e quer me emprestar seu ombro amigo?

Penso de novo e me pergunto: o que mesmo estou pensando? Caracas! Ainda tenho o direito de pensar?

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Então lá vai… me aguenta aí Facebook porque você pediu, agora te vira! Não surta, tá?

Vou te contar de verdade o que estou sentindo no fundo da alma. Eu quero sair, quero correr na rua, passear, voar, abraçar, viajar, conversar, quero perto de mim todas as pessoas que eu amo. Eu quero ser livre!

Facebook, entenda, eu não estou querendo nada além daquilo que eu sempre tive direito.

Está difícil me conformar que do nada veio um vírus que dominou todo o mundo. Veja bem, o mundo todo, você está entendendo?

E nós, humanos, e olha que somos bilhões, ficamos paralisados igual formiguinhas diante de um monstro invisível.

Aqui estamos, melhor, buscando todos os dias um plano B. Eu, particularmente, já cheguei no Z, aí volto de novo, inventando e criando possibilidades de acomodação das minhas angústias, porque é preciso continuar. Lá vou eu todos os dias buscar razões para justificar a minha existência.

Quer saber? Eu tenho encontrado muitos tesouros escondidos, coisas que existiam dentro de mim que eu não conhecia e muitas que eu havia esquecido. Tenho buscado o valor das coisas simples da vida e me pego todos os dias olhando para o céu e agradecendo a Deus por estar aqui, inteira e podendo prosseguir.

Como são poucas as coisas que posso fazer fora, me voltei para o eu interior. Alimento a minha melhor versão. Busco alimentar o que há tempos eu deixei de prestar atenção. Tenho orado muito por mim e pelos outros e, diante do caos exterior, tenho descoberto tesouros desconhecidos que têm feito a vida valer a pena.

Essa caminhada é muito diferente de tudo o que se ouviu falar. É difícil, complicada. Temos medo de tudo e de quase todo mundo. Isso é bem estranho!

Pois é, Facebook, você não faz ideia do que é ligar a televisão e ter a sensação de apocalipse. Não têm contado nada de bom para a gente. Cada dia uma coisa nova, e no dia seguinte o que era certo já é errado. O povo se enfrentando, brigando por política, incendiando cidades, depredando lojas.

A vida está continuando e, sem dúvida, coisas boas ainda existem aos montes, mas parece que não é legal falar de coisas boas, porque só temos visto e ouvido sobre tragédias. Sei lá onde isso vai parar, mas de uma coisa eu sei: isso vai passar!

Por saber que um dia isso acabará é que não posso perder as esperanças, porque quando acabar, precisarei estar inteira para prosseguir.

Sabe, Facebook, por mais que eu esteja buscando viver dentro da normalidade que me é permitida pela situação, continuo com saudades das pessoas que eu amo, continuo querendo que isso acabe o quanto antes e continuo e continuarei a rezar todos os dias pedindo a Deus para proteger a minha família, meus amigos, meus pacientes, todas as pessoas que de alguma forma fazem parte da minha vida.

Sempre que lembro, e lembro várias vezes ao dia, peço a Deus que ilumine os cientistas e que o mais breve possível chegue ao fim esse caos. Na certeza de que Deus tem o seu tempo, sigo buscando acomodar os sentimentos ruins e colocar em seu lugar a esperança.

E agora, Facebook, que você já me fez confessar tudo isso, você vai espalhar por aí? Para de ser fofoqueiro. Eu só te contei porque você não para de me fazer essa pergunta todos os dias.

Bora lá! Um dia de cada vez e Deus em todos eles.

 

Silvana Nardello Nasihgil é psicóloga clínica com formação em terapia de casal e familiar (CRP – 08/21393)

silnn.adv@gmail.com

 

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