Elio Migliorança

UM FATO E DUAS VERSÕES

Os meios de comunicação têm o poder de criar heróis ou bandidos, dependendo da forma como um fato é contado. Recentemente, um motorista cujo caminhão estava sem freio, parou no acostamento, numa descida distante quatro quilômetros do trevo de acesso a Francisco Beltrão, no Sudoeste do Paraná. Enquanto um mecânico tentava o conserto, o caminhão começou a mover-se e o motorista conseguiu subir na cabine e dirigir o caminhão até o trevo. Para tentar evitar um acidente, o motorista entrou na contramão, mas acabou atingindo três caminhões e um carro. Um dos caminhões era de bebidas, o motorista conseguiu desviar a cabine, mas atingiu a carreta e derrubou parte da carga. Houve feridos sem gravidade, que foram socorridos no local. Os meios de comunicação da região teceram louvores à perícia do motorista que evitou a tragédia. Antes que ele fosse homenageado com o título de Cidadão Honorário da cidade e posteriormente canonizado, o jornalista Felix Miglioranza, de Francisco Beltrão, apresentou outra versão, analisando o fato por outro ângulo. “Em todas as reportagens há alusões à perícia do condutor que evitou mortes. Pois bem, antes que o sujeito seja condecorado por ato heroico, ouso discordar, pois já fui carreteiro, no tempo em que os freios de caminhões tinham eficiência pouco maior do que puxar o rabo de um boi para fazê-lo parar, então, em cada descida, prestávamos mais atenção nas alternativas de fazer o caminhão parar do que na própria pista. No meu ponto de vista, o motorista cometeu pelo menos quatro imprudências ou negligências, que só por sorte e não por habilidade não causaram uma tragédia. Primeira imprudência: com o caminhão parado e sem freios, é indispensável calçar o caminhão. Todo carreteiro tem pelo menos dois tocos de madeira na caixa de ferramentas; se não tinha já foi negligente, mesmo assim no lugar em que parou, pedra é o que não falta. Segunda imprudência: ou o caminhão não estava engrenado, ou estava em uma marcha longa. Se estivesse engrenado em primeira, duvido muito que desandasse no declive que tem a serra onde estava estacionado. Terceira imprudência: quando parou, deveria ter travado o volante com a direção voltada para um lado, mesmo que fosse para uma ribanceira. Se o caminhão desandar, vai despencar, mas você vai se salvar. Esse caminhão tem direção hidráulica e as rodas não se alinhariam para frente em hipótese alguma com o motor desligado. Quarta imprudência: se o motorista conseguiu alcançar e subir no caminhão, é porque este ainda não estava nem a 15 km/h. Nessa velocidade o caminhão podia ser encostado no barranco à esquerda ou então poderia ter sido pranchado no lado direito da pista. Nesta velocidade a carreta somente vai deitar, o motorista nem soltaria o volante e é possível que nem amasse a porta. Já vi uns cinco casos assim. Assim, tenho plena convicção de que o motorista/herói fez quase tudo errado tentando salvar o caminhão, numa roleta russa impossível de dar certo uma segunda vez. E para encerrar, o fato de não ter batido de frente com a carreta carregada de cerveja não foi perícia do motorista acidentado, que estava na contramão, foi sim reação de defesa do cervejeiro, que tirou para a direita a fim de evitar a colisão”. Imprensa é boa quando é inteligente, verdadeira e imparcial.

 

* O autor é professor em Nova Santa Rosa

 

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