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Dom João Carlos Seneme

Um pai e os seus dois filhos

Neste domingo (31) nos encontramos no centro da Quaresma e também no centro do Evangelho de Lucas. O capítulo revela o amor misericordioso do Pai através de três parábolas: a ovelha perdida, a moeda perdida e a parábola do filho pródigo.

A parábola deste domingo narra uma maravilhosa história de amor do pai diante do egoísmo e rancores dos filhos. Não podemos deixar de lado a introdução do texto que apresenta os pecadores aproximando-se de Jesus para ouvi-lo e a reação dos judeus que murmuram e reprovam a acolhida de Jesus. Dois filhos, duas atitudes diferentes. O pai dá unidade e faz a ponte entre os dois.

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Lucas apresenta um complexo estudo de interação entre liberdade, dever e amor. O filho mais novo encarna a liberdade. Ele vai embora quando quer e retorna também quando quer. O filho mais velho, ao contrário, encarna o dever. Ele serve ao pai sem reclamar e não pede nada como recompensa. Somente o pai encarna o amor e é nele que a liberdade e o dever atingem seu verdadeiro propósito.

É fácil identificar o filho mais novo como o vilão. Seu pedido de herança antecipada revela uma insolência de tirar o fôlego. Ele está, com efeito, dizendo que seu pai vale mais para ele morto do que vivo. Seu desrespeito se manifesta novamente quando ele desperdiça a riqueza de sua família. Sua escolha de retornar ao pai também é interesseira. Embora ele prepare uma bela declaração chamando a si mesmo de pecador, ele retornou porque estava passando fome. Ele reconhece o sofrimento que passou devido às suas ações, mas revela pouco entendimento da dor que causou aos outros. Sua liberdade o isola, causa-lhe sofrimento e faz os outros sofrerem.

O filho mais velho também se isolou pelo seu senso de dever. Ele nunca reclamou, porém, calado, guardou ressentimento. Sua obediência não é um sinal de amor, mas sim uma manifestação de seu próprio ego. Ele faz o que é certo como uma maneira de ganhar e manter a aprovação de seu pai. O retorno de seu irmão mais novo revela a inutilidade deste projeto quando ele vê seu irmão receber, sem esforço nenhum, o que ele lutou tanto para alcançar. Sozinho ele sofre.

Os dois filhos estão perdidos, presos no próprio egoísmo. Somente na atitude de amor do pai a liberdade e o dever encontram seu propósito. O pai revela sua liberdade de apegos quando atende ao pedido do filho mais novo. Quando o filho mais novo retorna, a liberdade do pai lhe permite perdoar tudo e receber o filho de volta.

Da mesma forma, o senso de dever do pai é claro quando ele deixa a celebração para falar com o filho mais velho. Ele reconhece que o mais velho precisa de seu amor naquele momento. Em sua promessa, “tudo o que eu tenho é seu”, ele reconhece sua dívida com o mais velho, e lhe oferece tudo como um sinal de seu amor.

Jesus oferece esta parábola para ilustrar a alegria de Deus no retorno de um filho perdido e de todo pecador que se converte. A conversa com o filho mais velho é um convite para entrar na festa da gratuidade, abandonar a lógica do julgamento e reconhecer-se filho e irmão. Acolher a misericórdia, estar perto do pecador porque ele sempre será um irmão e reconstruir relações novas e fraternas.

 

Dom João Carlos Seneme é bispo da Diocese de Toledo

revistacristorei@diocesetoledo.org

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