Tarcísio Vanderlinde

Uma metáfora para o nosso tempo

“Naquela época não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo”.

A epígrafe sintetiza fase vivida pelo povo de Israel durante aproximadamente 350 anos, e que se encerrou por volta de 1050 a.C.. Era o tempo dos juízes.

As histórias sobre o tempo dos juízes aparecem em livro homônimo no cânone do Antigo Testamento. As narrativas chamam atenção para os repetidos desvios de Israel, da triste decadência nacional, um dos períodos mais lamentáveis da história daquele povo.

Não se sabe muito sobre o autor do livro. O Talmude judaico informa ser Samuel o escritor, contudo é provável que profetas como Gade e Natã tenham colaborado na editoração do material. Durante aquele período, Israel era constituído por uma sociedade tribal comandada por líderes conhecidos como juízes, sendo que à época o centro religioso ficava em Siló.

Na fase marcada pelos governos dos juízes (alguns governaram simultaneamente, o que aumentava a confusão), e por pelo menos 200 anos, os israelitas mantiveram conflitos permanentes com os filisteus, situação que ficou mais ou menos sob controle apenas a partir do reinado de Davi.

O período foi marcado pela governança de 14 juízes, algumas fontes apresentam 15. Alguns se sobressaíram por seus méritos, outros tiveram o governo marcado por catástrofes. Atos de heroísmo e de barbárie se entrelaçaram no período. Mesmo entre quem não tenha lido as narrativas pode-se encontrar pessoas que saberão dizer algo a respeito de Gideão, Sansão ou Samuel, os juízes mais conhecidos.

Sansão se notabilizou por ter tido uma força descomunal. Embora dedicado desde o seu nascimento a uma vida regrada decorrente do voto de nazireado (na Torá é o termo que designa uma pessoa que faz um voto de estar a serviço de Deus por um tempo determinado ou por toda a vida), sua biografia tornou-se exemplo de um drama daqueles que desperdiçam um grande potencial por falta de autocontrole. No caso dele sobrou força e faltou sabedoria.

Vive-se um período eleitoral carregado. Sorrisos são vistos com desconfiança. Costuma-se ficar perdido entre fakes, baixarias e ranger de dentes. O clima de insegurança pode levar a situações extremas. Há perplexidade diante de delações e das decisões que delas decorrem. Muitos se aquietam para não perder os amigos. Mas há sempre alguma esperança.

Quiçá possamos atravessar o vale de angústia e entrarmos num tempo mais saudável. Pode-se considerar inclusive a possibilidade do abraço e da reconciliação nesta travessia.

Poucas palavras são capazes de revelar maior senso de humanidade do que aquelas proferidas por Carlitos, o palhaço mais conhecido do século XX: “Desejamos viver para a felicidade do próximo não para o seu infortúnio”.

 

O autor é professor da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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