A solenidade do Batismo do Senhor encerra o tempo do Natal e, ao mesmo tempo, abre diante de nós um horizonte novo para compreender quem é Deus e como Ele escolhe estar conosco. Depois de contemplarmos o Filho de Deus na fragilidade de uma criança, a liturgia nos conduz às águas do Jordão para revelar que a Encarnação não é apenas ternura, mas também compromisso profundo de Deus com a história humana. No Batismo de Jesus manifesta-se uma justiça que não se limita a medir culpas ou a aplicar punições, mas que deseja restaurar, levantar e devolver vida plena aos caminhos feridos da humanidade.
João Batista aparece como uma figura forte e luminosa. Homem de palavra direta, de vida austera, de grande coerência interior, ele encarna a expectativa de um Deus que vem para julgar, corrigir e exigir conversão. Sua hesitação diante de Jesus revela algo muito humano, pois também nós, muitas vezes, imaginamos Deus segundo nossos critérios de força, rigor e merecimento. Esperamos um Deus que se imponha, que separe claramente os justos dos pecadores, que recompense uns e castigue outros. No entanto, ao se apresentarpara ser batizado, Jesus desmonta essa lógica e convida João, e todos nós, a acolher um modo novo e surpreendente de agir divino.
A justiça de Deus não nega a responsabilidade nem apaga a gravidade do mal. Ela vai além. É uma justiça que não se contenta em punir, mas que deseja salvar. Não se limita a restaurar o equilíbrio exterior, mas quer tocar o coração e recriar a vida a partir de dentro. Deus considera justo que quem se perdeu possa reencontrar o caminho, que quem caiu seja levantado, que quem se deixou aprisionar pela culpa receba uma nova oportunidade. Essa justiça nasce do amor e se expressa como misericórdia ativa, capaz de abrir os olhos, libertar os cativos e devolver esperança a quem vive nas trevas.
Quando Jesus entra nas águas do Jordão, Ele não o faz por necessidade própria, mas por solidariedade. Coloca-se ao lado dos pecadores, assume o peso da condição humana e desce até onde a fragilidade nos levou. Nesse gesto humilde, Deus revela a forma mais alta do seu amor. Ele não salva à distância, mas aproximando-se. Não domina, mas se inclina. Não humilha, mas se ajoelha diante da nossa humanidade ferida para curá-la por dentro.
A voz do Pai que se faz ouvir no Batismo de Jesus ilumina também a nossa vida. Em Cristo, Deus olha para a humanidade com benevolência renovada. Em Cristo, somos chamados a nos reconhecer filhos amados, não por mérito, mas por graça. Essa certeza nos liberta da necessidade constante de nos justificar, de provar valor, de carregar culpas sem fim. Somos convidados a viver como filhos, reconciliados, amados e enviados.
Na festa de hoje, somos chamados a reconhecer, na forma de um rebaixamento, a mais clara manifestação de amor por nós, a beleza para a qual converter a dureza do nosso coração. Sem perder a sua dignidade, Deus se revelousolidário conosco onde nem nós mesmos conseguimos ser solidários conosco. Temos, assim, a oportunidade de redescobrir que dom Deus nos fez com o Natal do seu Filho, para que, neste novo ano que se abre diante de nós, possamos renunciar ao hábito de sempre nos justificarmos e começar a viver na liberdade dos filhos, justificados e amados, estabelecidos numa relação com um Deus que quis se arriscar plenamente por nós, entregando-nos o que tinha de mais precioso, “passando pelo mundo fazendo o bem e curando” (At 10,38) toda a nossa humanidade.
Dom João Carlos Seneme é bispo da Diocese de Toledo