No Evangelho deste domingo (15/02) continuamos com Jesus, seus apóstolos e a multidão no monte das bem-aventuranças (Mt 5,17-37). A palavra que começou como anúncio de felicidade torna-se agora orientação concreta para a vida. Como novo Moisés, Jesus afirma que não veio abolir a Lei, mas levá-la ao pleno cumprimento. Não há ruptura, mas cumprimento. Não há negação do passado, mas revelação de seu sentido mais profundo.
A Palavra de Deus não se contenta com gestos exteriores. Ela quer o coração. Quando acolhida com sinceridade, purifica intenções, cura feridas e ilumina o que estava confuso. Vai retirando aquilo que é superficial, cura o que está ferido, ilumina o que estava confuso. Pouco a pouco forma em nós um coração semelhante ao de Deus, um coração atento, responsável, capaz de amar com maturidade.
Uma gota desse amor transforma tudo. Desarma a agressividade, vence a indiferença, dissolve ressentimentos. O Evangelho não nos pede apenas que amemos mais, mas que amemos melhor. Por isso, antes de qualquer gesto religioso está sempre o irmão concreto. Não há culto verdadeiro sem reconciliação e cuidado mútuo.
No Antigo Testamento, a Lei (Torá) era dom e instrução para a vida. Protegia a dignidade humana e preservava o povo do mal e da autodestruição. Jesus não despreza essa herança. Ele a plenifica. Levar a Lei à plenitude significa revelar sua intenção mais profunda, que é conduzir ao amor. O mandamento não é fim em si mesmo, mas caminho para uma vida reconciliada com Deus e com os outros.
Por isso, Jesus vai além da letra. O “não matarás” não se limita ao ato violento. A Palavra denuncia também o desprezo, a ofensa, o julgamento que humilha. A vida não é apenas biologia, é relação. Quando as relações são envenenadas pelo orgulho e pela agressividade, algo essencial é ferido. O Reino começa quando aprendemos a cuidar da dignidade do outro em palavras e atitudes.
O mesmo acontece com o mandamento sobre o adultério. Jesus desloca o olhar para o interior. A infidelidade nasce antes no coração. O uso do outro como objeto, o desejo de posse, a redução do amor a satisfação egoísta já rompe a lógica da aliança. O Senhor não impõe peso insuportável, mas protege o amor, preserva a confiança e a dignidade recíproca.
O caminho do Evangelho é exigente porque é verdadeiro. Todos os dias fazemos escolhas que moldam nosso caráter e nossas relações. Os mandamentos não são ameaça, mas protetor da vida. São como sinalizações que impedem a queda. Quando compreendidos a partir do amor, deixam de ser peso e tornam-se sabedoria.
Nossa justiça deve ser maior que a dos mestres da Lei. Não se trata de fazer mais, mas de ir mais fundo. Aquela justiça podia produzir ordem, mas nem sempre gerava misericórdia. A justiça do Reino nasce de um coração tocado pela graça. Não se limita a evitar o mal, mas busca o bem com generosidade. É medida pela capacidade de perdoar, reconciliar e permanecer fiel.
Entrar no Reino não é apresentar uma lista de observâncias, mas permitir que Deus transforme o interior. Quando a Lei se torna Palavra viva, a vida inteira se converte em culto agradável. A plenitude da Lei é a caridade. Então a exigência amadurece, a fé ganha verdade e a existência simples começa a refletir o Reino que cresce silenciosamente entre nós.
Essa mensagem é profundamente atual. Também hoje existe o risco de uma fé de fachada, correta nas formas e pobre em interioridade. O Evangelho nos chama a uma conversão contínua. Cada gesto, cada palavra, cada decisão pode ser expressão de uma justiça nova, aquela que brota do amor.
Por Dom João Carlos Seneme. Ele é bispo da Diocese de Toledo
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