O Presente
Dom João Carlos Seneme

Jesus nos abre os olhos da fé e da esperança

calendar_month 14 de março de 2026
3 min de leitura

O quarto domingo da Quaresma é tradicionalmente chamado de Domingo da Alegria, o Laetare. No coração do caminho penitencial da Quaresma, a Igreja nos convida a levantar os olhos e a contemplar a luz que já se aproxima. Essa alegria nasce da certeza de que Deus não abandona o ser humano na escuridão, mas vem ao seu encontro para restaurar a vida. O Evangelho da cura do cego de nascença, narrado em João 9, revela precisamente essa obra de Deus que devolve ao homem não apenas a visão física, mas a capacidade de reconhecer a luz da fé.

No relato do cego de nascença (Jo 9, 1-41), a cura não é apenas um milagre, mas um verdadeiro caminho de fé. No início, aquele homem não conhece Jesus. Ele simplesmente obedece à palavra que recebe, vai se lavar na piscina de Siloé e começa a ver. Aos poucos, ao ser interrogado e pressionado pelos fariseus, vai amadurecendo sua compreensão. Primeiro afirma que Jesus é um homem, depois reconhece que é um profeta e finalmente proclama: “Eu creio, Senhor”. O milagre exterior abre espaço para uma iluminação interior. Aquele que era cego passa a ver, enquanto aqueles que se julgavam conhecedores da lei permanecem presos à sua cegueira espiritual.

O Evangelho apresenta aqui um contraste profundo. De um lado está o homem simples, aberto à ação de Deus, que pouco a pouco se deixa conduzir à verdade. De outro lado estão os fariseus, que enxergam fisicamente, mas permanecem fechados em seus esquemas religiosos. Eles não conseguem reconhecer a obra de Deus porque estão presos a critérios rígidos, incapazes de acolher a novidade da graça. O milagre realizado no sábado torna-se para eles motivo de escândalo. Assim, a verdadeira cegueira não é a dos olhos, mas a do coração.

O sofrimento humano não é um sinal de condenação divina. Ao contrário, torna-se lugar onde Deus pode revelar sua misericórdia e sua ação salvadora.

O gesto de Jesus conduzindo o homem a lavar-se na piscina de Siloé possui um forte significado simbólico. A água recorda o batismo, no qual somos mergulhados na vida nova de Cristo. Por isso, na Igreja antiga, o batismo era chamado de iluminação. Aquele que recebia esse sacramento passava das trevas para a luz. Não por acaso, a segunda leitura deste domingo recorda as palavras da Carta aos Efésios: “Outrora éreis trevas, agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz”.

O rito do Efatá expressa bem esse caminho. Ao traçar o sinal da cruz sobre os ouvidos, os olhos e a boca, pede-se que o discípulo seja capaz de escutar, ver e proclamar a obra de Deus. A fé nasce dessa abertura interior, de um coração que se deixa tocar pela iniciativa divina.

Entretanto, o Evangelho recorda também que a luz de Cristo exige uma resposta. O homem curado não encontra apenas gratidão. Ele enfrenta incompreensão, interrogatórios e até a exclusão da comunidade. Somente depois de ser rejeitado é que Jesus o encontra novamente e o conduz à plenitude da fé. Esse detalhe revela algo essencial do discipulado. Seguir Cristo significa muitas vezes enfrentar incompreensão e oposição.

O Domingo da Alegria nos recorda que a verdadeira alegria nasce da luz que Cristo acende em nossa vida. Uma luz que nos permite ver a realidade com novos olhos, reconhecer a presença de Deus e caminhar na verdade. Ao mesmo tempo, essa luz nos convida à humildade de reconhecer nossa própria cegueira espiritual. Somente quem admite que não vê plenamente pode se abrir à graça que ilumina.

Por Dom João Carlos Seneme. Ele é bispo da Diocese de Toledo

revistacristorei@diocesetoledo.org

 
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