Com a Quarta-feira de Cinzas iniciamos o Tempo da Quaresma, caminho espiritual que nos conduz ao coração da fé, o mistério pascal de Jesus Cristo, sua paixão, morte e ressurreição. Não se trata apenas de recordar acontecimentos do passado, mas de permitir que a Páscoa transforme o presente da nossa vida. A Quaresma é tempo de conversão, tempo de retorno ao essencial, tempo de redescobrir a graça do Batismo que nos fez filhos e filhas de Deus e membros de uma comunidade chamada a ser sinal de vida nova.
No deserto, Jesus refaz o caminho da humanidade. Onde houve desconfiança, Ele vive confiança. Onde houve apropriação, Ele vive entrega. Onde houve impaciência, Ele vive espera. O deserto não é apenas um lugar geográfico, mas um espaço interior de verdade. Ali aparecem as fomes reais do coração humano.
As três tentações (Mt 4,1-11) revelam as seduções que atravessam também a nossa história. A primeira toca a necessidade mais básica, o pão. Transformar pedras em pão significaria usar o poder para resolver imediatamente a própria carência. Jesus responde que nem só de pão vive o homem. Há uma fome mais profunda, a fome de sentido, de Palavra, de comunhão.
A segunda tentação é a busca de reconhecimento. Lançar-se do templo e ser sustentado por anjos seria um espetáculo de afirmação pública. É a sedução da visibilidade e do sucesso rápido. Jesus recusa colocar Deus à prova. Ele não instrumentaliza o Pai para confirmar a própria imagem.
A terceira é a tentação do poder e da posse. Tudo será dado, desde que haja adoração. É a promessa de segurança total em troca de uma pequena concessão interior. Aqui se revela o coração do pecado, substituir a confiança por controle, a filiação por domínio. Jesus responde com firmeza que somente Deus deve ser adorado. Jesus vence o pecado e manda o tentador embora.
A Quaresma nos oferece três caminhos concretos para enfrentar essas tentações: jejum, oração e esmola. O jejum nos educa na relação conosco mesmos, ajudando-nos a reconhecer nossos limites e ordenar nossos desejos. A oração nos reconduz à confiança filial, renovando nossa relação com Deus. A esmola abre nosso coração aos irmãos, libertando-nos da lógica da posse.
Neste tempo de conversão, somos convidados também a alargar o olhar para as feridas concretas do nosso povo. A Campanha da Fraternidade 2026 nos propõe o tema da Fraternidade e Moradia, com o lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A encarnação do Filho de Deus revela que Deus não permaneceu distante, mas armou sua tenda no meio da humanidade, assumindo nossa condição e santificando a realidade da vida cotidiana.
Refletir sobre moradia é tocar em uma dimensão essencial da dignidade humana. A casa não é apenas uma construção de paredes e teto, mas espaço de proteção, de intimidade, de vínculos e de esperança. Quando falta moradia digna, fere-se profundamente a pessoa e a família. Milhares de irmãos e irmãs vivem em condições precárias, sem segurança, sem estabilidade, sem o mínimo necessário para viver com dignidade.
Que neste caminho rumo à Páscoa, sustentados pela Palavra e fortalecidos pela oração, saibamos atravessar nossos desertos pessoais com serenidade. E que Maria, mãe das dores e da esperança, nos acompanhe para que, permanecendo filhos, cheguemos à alegria da vida nova do Ressuscitado.
Por Dom João Carlos Seneme. Ele é bispo da Diocese de Toledo
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