No segundo domingo da Quaresma, a Igreja nos conduz ao alto do monte para contemplar o mistério da Transfiguração, conforme o relato de Evangelho segundo Mateus 17,1-9. No caminho que leva a Jerusalém e à paixão, o rosto de Jesus brilha como o sol e suas vestes tornam-se luminosas. Trata-se de um momento decisivo, um respiro no meio da subida exigente rumo à cruz. Dessa forma, o Evangelho nos recorda que os exercícios de conversão não possuem um fim em si mesmos. Eles querem restaurar a imagem do Filho de Deus em nós.
Jesus sobe ao monte com Pedro, Tiago e João. Ele se coloca em oração. A Transfiguração nasce da intimidade com o Pai. Ali, no silêncio e na escuta, Jesus confirma sua obediência e abraça de modo consciente o caminho que passa pelo sofrimento. Moisés e Elias, representantes da Lei e dos Profetas, conversam com Ele. Toda a história da salvação converge agora para a sua pessoa. Já não é apenas o profeta da Galileia, é o Filho amado que revela plenamente o rosto de Deus.
A voz do Pai proclama, Este é o meu Filho amado, o meu predileto. Escutai-o. A Quaresma é tempo de escuta. Antes de fazer, antes de agir, somos chamados a ouvir. Escutar Jesus significa acolher o seu estilo, assumir a lógica do dom, aceitar que a salvação passa pela entrega.
Os discípulos não compreendem tudo, mas experimentam paz. Senhor, como é bom estarmos aqui. Eles desejam permanecer no monte. Contudo, a missão os espera na planície. A humanidade está no vale, marcada por sofrimentos, injustiças e medos. Não podemos construir tendas e ficar. É preciso descer com Jesus e caminhar com Ele.
A Transfiguração é antecipação da Ressurreição. É uma luz que ilumina a noite da cruz. Também em nossa vida há momentos de monte, experiências fortes de oração, retiros, celebrações que renovam a esperança. Essas experiências não nos afastam do mundo, mas nos fortalecem para servi-lo melhor.
Neste tempo quaresmal, somos convidados a subir ao monte da oração para descer à planície da missão. Contemplar para agir. Escutar para anunciar. Deixar que o rosto luminoso de Cristo ilumine nossas sombras.
A Campanha da Fraternidade 2026, ao retomar o tema da fraternidade e moradia e recordar que o Verbo veio habitar entre nós, provoca-nos a olhar para as planícies concretas onde a vida está ameaçada. A indiferença é um pecado silencioso. A compaixão é o antídoto. Se fixarmos o olhar em Jesus somente, aprenderemos a reconhecer o seu rosto nos irmãos sem casa, sem dignidade, sem esperança.
Quando os discípulos caem por terra, tomados de medo, Jesus se aproxima e diz, Levantai-vos, não temais. Esta palavra é também para nós. Levantar-se significa retomar o caminho. Não temer significa confiar que a luz de Deus é mais forte que qualquer escuridão.
A Quaresma é novo começo. Como Abraão, somos chamados a sair da nossa terra, dos nossos esquemas e comodidades. Como os discípulos, somos convidados a caminhar com Jesus até Jerusalém. A experiência do monte nos dá a certeza do amor do Pai. E essa certeza nos envia.
A conversão ao Evangelho não é algo que devemos fazer — como Pedro queria dizer, pedindo a Jesus: Se quiseres, farei aqui três tendas… (Mt 17,4) — mas algo que Deus deseja realizar em nós, na medida em que nos permitimos ser contemplados por seu rosto e cativados pelo som de sua voz: O Senhor pousa o olhar sobre os que o temem, e que confiam em seus amor (Sl 32,18).
Que neste segundo domingo possamos deixar que o nosso olhar repouse sobre Jesus. E que, iluminados por Ele, nos tornemos luz na planície da vida, servidores do Deus da vida, testemunhas da esperança que não decepciona.
Por Dom João Carlos Seneme. Ele é bispo da Diocese de Toledo
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