O Presente
Dom João Carlos Seneme

Onde a Palavra é acolhida com humildade, o Reino de Deus já começa a florescer

calendar_month 11 de julho de 2026
3 min de leitura

O Evangelho do 15º Domingo do Tempo Comum (12/07) marca o início do chamado “discurso das parábolas” no Evangelho de Mateus (Mt 13,1-23). Depois de enfrentar a crescente resistência das autoridades religiosas e a incompreensão de muitos de seus contemporâneos, Jesus passa a anunciar o Reino de Deus por meio de imagens tiradas da vida cotidiana. A primeira delas é a parábola do semeador.

A parábola do semeador é, antes de tudo, uma parábola sobre Deus. Normalmente nossa atenção se fixa nos diferentes tipos de terreno, procurando descobrir em qual deles nos encontramos. No entanto, Jesus começa falando de um semeador extraordinariamente generoso. Ele não economiza sementes, não faz cálculos, não semeia apenas onde existe garantia de sucesso. Lança a semente em toda parte.

Assim é Deus. Seu amor não é reservado aos perfeitos nem aos santos já prontos. A graça precede a conversão. Antes que o ser humano mude de vida, Deus já tomou a iniciativa de amá-lo. A Palavra é oferecida indistintamente aos bons e aos maus, aos fortes e aos fracos, aos que estão próximos e aos que parecem distantes. A misericórdia de Deus é sempre maior que os limites do coração humano.

Ao mesmo tempo, Jesus não esconde a realidade. Grande parte da semente parece se perder. Alguns corações permanecem fechados. Outros acolhem a Palavra apenas superficialmente. Há também aqueles que começam bem, mas permitem que as preocupações, o desejo de riqueza, a busca do sucesso e as seduções do mundo acabem sufocando o Evangelho.

Isso vale também para a missão da Igreja. Nem toda evangelização produzirá resultados imediatos. Nem toda pregação será acolhida. O próprio Jesus experimentou a rejeição. Por isso, o discípulo não deve medir a fecundidade da missão apenas pelos números ou pelos resultados visíveis. O Reino cresce silenciosamente. Deus continua agindo mesmo quando tudo parece indicar fracasso.

A parábola convida cada cristão a fazer um exame de consciência. O terreno do coração nunca permanece igual. Às vezes endurece pelo orgulho ou pela indiferença. Outras vezes se torna pedregoso pela superficialidade da fé. Em certos momentos é sufocado pelos espinhos das preocupações, do consumismo, da ansiedade ou da busca exagerada por segurança. Mas também pode se tornar terra boa quando é cultivado pela oração, pelos sacramentos, pela escuta da Palavra e pela caridade.

Jesus não pede um terreno perfeito. Ele pede um terreno disponível. O terreno bom indica aquele que permanece aberto à ação de Deus e persevera mesmo nas dificuldades.

A fé é transformada pela escuta e acolhida ativa e responsável da Palavra. Ela precisa alcançar toda a pessoa: a inteligência para compreender, a vontade para decidir e a vida concreta para produzir frutos. O discípulo não é apenas aquele que escuta, mas aquele que transforma a Palavra em escolhas, atitudes e testemunho.

No fim da parábola permanece uma grande esperança. Apesar das muitas dificuldades, existe terra boa. E nela a colheita é abundante: trinta, sessenta e até cem por um. Esse fruto supera infinitamente aquilo que o ser humano seria capaz de produzir sozinho. Quando acolhemos verdadeiramente Cristo, nossa vida se torna fecunda para a família, para a comunidade e para o mundo.

A Igreja continua sendo essa grande semeadora. Ela anuncia o Evangelho sem medo, sem selecionar previamente as pessoas e sem perder a esperança. Afinal, a força não está no semeador nem na terra, mas na própria Palavra de Deus, que possui em si mesma a capacidade de transformar o coração humano e fazer nascer uma nova humanidade. Onde a Palavra é acolhida com humildade, o Reino de Deus já começa a florescer.

Por Dom João Carlos Seneme. Ele é bispo da Diocese de Toledo

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