O Presente
Dom João Carlos Seneme

Ser sal e ser luz: transformar o amor recebido em cuidado

calendar_month 7 de fevereiro de 2026
4 min de leitura

Chamar alguém de “sal da terra” é reconhecer uma presença discreta, mas decisiva. É alguém em quem se pode confiar, alguém que permanece quando as coisas se tornam difíceis. Jesus se apropria dessa imagem simples e profunda para revelar algo essencial sobre seus discípulos. Ele não apresenta uma meta distante, nem impõe uma tarefa futura. Afirma uma identidade já recebida: vós sois. Ser sal e ser luz não é um ideal a ser conquistado, mas uma vocação que nasce do encontro com Ele.

O sal não aparece, mas transforma. Pequeno, quase invisível, ele é capaz de realçar o sabor e impedir que o alimento se perca. Assim também acontece com quem se deixa moldar pelo Evangelho. A vida tocada por Jesus passa a despertar o melhor nos outros, a proteger aquilo que é humano, a preservar valores sem os quais a convivência se deteriora. Justiça, compaixão, cuidado mútuo não são acessórios da fé, são sinais concretos de uma vida que ainda tem sabor.

O risco, porém, é real. Quando o discípulo se adapta demais aos critérios do mundo, quando perde a coragem das bem-aventuranças, a fé se torna insossa. Continua existindo, mas já não provoca, não consola, não orienta. Surge então uma pergunta inevitável e profundamente espiritual: que sabor a minha vida oferece aos outros? Minha presença ajuda a conservar o que é bom ou apenas repete o que já está gasto?

A imagem da luz aprofunda ainda mais essa missão. A luz não é algo que se olha em si mesma. Ela existe para permitir que vejamos. Ser luz do mundo não é brilhar por conta própria, nem ocupar o centro, mas ajudar os outros a enxergar. Enxergar a vida com mais verdade, enxergar o rosto de Cristo, enxergar um caminho possível de salvação.

Jesus retoma uma antiga vocação de Israel, ser luz para as nações, e a entrega agora aos seus discípulos. Não como privilégio, mas como responsabilidade. A luz não grita, não se impõe, não domina. Ela simplesmente está ali, firme, acessível, orientando silenciosamente no meio da escuridão.

O profeta Isaías torna essa luz concreta. Ela se manifesta quando o pão é repartido, quando o faminto é acolhido, quando o nu é vestido, quando o outro deixa de ser invisível. É nesse chão da vida que a luz rompe como aurora. Não se trata de gestos extraordinários, mas de ações que nascem de um coração transformado. Cada ato de cuidado abre um novo começo, ainda que pequeno, para a humanidade.

Paulo recorda que nada disso se sustenta sem uma confiança radical em Deus. Não é a força moral, nem a boa vontade isolada que tornam possível ser sal e luz. É a fé no Deus que age, que sustenta, que precede nossas obras. E Jesus revela quem é esse Deus ao chamá-lo de Pai. Não um Deus distante, inacessível, mas um Pai próximo, disponível, comprometido com a vida dos seus filhos.

Mesmo quando nossa experiência humana de paternidade foi frágil ou dolorosa, Jesus nos oferece outro horizonte. Sua vida, marcada pelo cuidado, pela cura e pela entrega, revela o rosto do Pai que Ele encarna. Um Deus com quem é possível ter relação, intimidade, confiança. Um Deus que não apenas pede, mas caminha conosco.

Ser sal e ser luz, no fim, é aceitar viver dessa relação. É deixar que o amor recebido se transforme em cuidado oferecido. É permitir que a presença de Deus em nós se torne sinal para os outros. Uma vida assim não faz barulho, mas muda o ambiente. Não ocupa o centro, mas ilumina o caminho. E talvez seja exatamente isso que o mundo mais precisa hoje.

Por Dom João Carlos Seneme. Ele é bispo da Diocese de Toledo

revistacristorei@diocesetoledo.org

 
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