Ao nos aproximarmos do fim do caminho quaresmal, a liturgia nos conduz ao coração do mistério da vida. Depois dos sinais da água viva e da luz, contemplados nos domingos anteriores, hoje somos colocados diante do sinal maior: a vida que vence a morte. A ressurreição de Lázaro não é apenas um milagre extraordinário, mas uma revelação decisiva de quem é Jesus e do destino ao qual somos chamados.
A oração deste domingo já nos orienta: não é o lamento que predomina, mas a esperança. Somos convidados a nos alegrar, porque o amor de Cristo é mais forte que a morte. Ele não apenas fala da vida, Ele é a própria vida: “Eu sou a ressurreição e a vida”.
Este Evangelho é uma verdadeira catequese batismal. Lázaro se torna imagem do homem novo, daquele que é chamado a sair da morte para entrar na vida de Deus. O batismo nos abre exatamente a essa realidade: uma vida que não termina, porque está enraizada no próprio Deus. Não se trata apenas de uma vida futura, mas de uma vida que já começa agora, no coração de quem crê.
O centro do relato está no diálogo entre Jesus e Marta. Diante da morte do irmão, ela expressa uma fé ainda voltada para o futuro: “Eu sei que ele ressuscitará no último dia”. Jesus, porém, conduz sua fé a um passo decisivo: a vida eterna não é apenas uma promessa distante, mas uma presença viva. Crer é entrar em comunhão com Ele, aqui e agora. Por isso a pergunta permanece atual e pessoal: “Crês nisto?”
Diante do túmulo, Jesus se comove profundamente porque Deus não é indiferente à nossa dor. Ele assume o sofrimento humano e o atravessa com amor. Diante da morte, somos ensinados por Cristo a duas atitudes fundamentais: chorar e confiar. Chorar, porque a morte fere e revela nossa fragilidade. Confiar, porque o amor de Deus é mais forte do que tudo aquilo que nos limita.
Mas há também uma exigência: “Tirai a pedra”. Antes de chamar Lázaro à vida, Jesus pede a colaboração humana. Há pedras que precisam ser removidas: o egoísmo, a indiferença, o apego desordenado às coisas que passam, a falta de esperança. Muitas vezes queremos a vida nova, mas permanecemos presos ao que nos impede de viver.
E então ressoa a palavra decisiva: “Lázaro, vem para fora”! É a voz que rompe os limites da morte e chama à vida plena. Este chamado ecoa hoje para cada um de nós. Somos convidados a sair de tudo aquilo que nos mantém paralisados: o pecado, o medo, o desânimo, a falta de sentido. Cristo nos chama pelo nome e nos restitui à vida.
No entanto, o Evangelho não termina com a saída do túmulo. Jesus diz: “Desatai-o e deixai-o caminhar”. Aqui aparece a dimensão comunitária da vida nova. Lázaro não se liberta sozinho. A comunidade participa da sua libertação: a vida recebida no batismo precisa da Igreja para crescer e amadurecer. Ninguém caminha sozinho no caminho da fé.
Em um mundo marcado por uma mentalidade materialista, este Evangelho nos recorda que a vida verdadeira não se reduz ao que passa. Aquilo que permanece é o amor vivido de forma concreta. No final, o que subsiste de nossa existência é aquilo que foi feito por amor verdadeiro, sem interesse, sem busca de si mesmo. É nesse amor que já participamos da vida eterna.
Por Dom João Carlos Seneme. Ele é bispo da Diocese de Toledo
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