O privilégio masculino da atemporalidade
Vamos fazer um exercício rápido de imaginação: pense em um homem solteiro de 35 anos. O que vem à sua cabeça? Provavelmente alguém “no auge”, “curtindo a vida”, “aproveitando”. Agora pense em uma mulher solteira de 35 anos. Sente a diferença? Para ela, as palavras costumam ser outras: “encalhada”, “exigente demais”, “deixou passar o tempo”.
Mesma idade. Julgamentos opostos. E é aqui que a construção social de que falamos nos artigos anteriores se revela em toda sua crueldade: tudo aquilo que aprendemos sobre pressão temporal, sobre janelas artificiais, sobre a exaustão de viver correndo, nada disso se aplica aos homens da mesma forma. Para eles, o tempo é aliado. Para nós, inimigo.
HOMENS AMADURECEM. MULHERES ENVELHECEM
Homens ganham charme com a idade. Mulheres “se cuidam para não parecer a idade que têm”, como se a própria idade fosse um defeito a ser disfarçado. Homens aos 40 são “interessantes”, “bem-sucedidos”. Mulheres aos 40 ouvem que “ainda estão bonitas”. Esse “ainda” carregado de condescendência, como se fosse uma surpresa agradável não termos virado abóboras à meia-noite dos 30.
Não existe “relógio biológico masculino” no imaginário social. Claro, biologicamente a fertilidade deles também decai, mas ninguém fica perguntando para um homem de 38: “E aí, quando vem o filho? O tempo está passando, viu?”. Ele não congela esperma aos trinta porque alguém disse que deveria. Ele não sente pânico ao ver os 40 se aproximando.
Um homem mais velho se relacionando com uma mulher jovem é normal, natural, até admirado. Mas quando é o inverso, a mulher é “corajosa”, estranha. Como se mulheres tivessem prazo de validade para serem desejadas e desejantes. Esse tema foi muito bem elaborado no livro A Prateleira do Amor, de Valeska Zanello.
Enquanto nós crescemos ouvindo que temos “uma chance de acertar”, eles crescem sabendo que podem errar quantas vezes quiserem. Podem casar tarde, descasar, recomeçar. Podem ter filhos quando quiserem. Podem focar na carreira sem ninguém perguntando se não vão “se arrepender de não ter formado família”.
NÃO ESTOU DIZENDO QUE HOMENS NÃO ENFRENTAM PRESSÕES
Enfrentam. Mas as pressões deles raramente envolvem essa urgência temporal angustiante. Veja, essa diferença não é biológica, ou natural. É profundamente ideológica. Serve para manter as mulheres inseguras, apressadas, fazendo escolhas ruins, aceitando menos do que merecem. Porque uma mulher que sente que o tempo está acabando é uma mulher controlável. Uma mulher que acredita ter “uma chance só” não negocia. Não questiona. Não espera. Aceita. Enquanto isso, homens negociam. Esperam, experimentam, recomeçam. Porque para eles foi ensinado, desde sempre, que o mundo pode esperar.
Lembra da exaustão que falamos no artigo anterior? Aquele cansaço de viver acelerada por dentro? Homens não carregam isso. Eles podem ter estresse, pressão profissional, problemas, mas não essa angústia existencial de estar perdendo tempo simplesmente por existir e envelhecer. É por isso que essa percepção é tão importante. Porque quando você vê que a pressa não é universal, não é para todos, fica impossível continuar acreditando que é “natural” ou “biológica”. Fica claro que é uma construção. E construções podem ser desconstruídas.
Não estou propondo que passemos a viver como os homens vivem, livres de qualquer senso de responsabilidade temporal. Estou propondo que paremos de aceitar essa desigualdade como inevitável. Que paremos de internalizar a ideia de que nosso valor deprecia, enquanto o deles aumenta d. Porque a verdade é simples e libertadora: se o tempo não é inimigo deles, não precisa ser nosso. Se eles podem recomeçar, nós também podemos.
Não se trata de negar que o tempo passa, ele passa para todos. Trata-se de questionar por que envelhecer rouba nosso valor e aumenta o deles. Trata-se de entender que isso não é destino: é desigualdade. E desigualdades se combatem. Começa em perceber. Continua em recusar. E se completa quando decidimos, individual e coletivamente, que não vamos mais correr atrás de um cronograma inventado para nos controlar. Quando uma mulher para de se desculpar por ter “demorado demais” para se casar, para ter filhos, para “se decidir”, ela não está sendo egoísta, está sendo livre.
Quando uma mulher escolhe seus tempos, seus ritmos, suas prioridades sem se curvar à urgência que tentam impor, ela não está perdendo tempo. Ela está, finalmente, vivendo no dela. E é assim, uma mulher de cada vez recusando essa corrida, que a gente começa a desmontar essa mentira: a de que o tempo é nosso inimigo. Não é. Nunca foi. O inimigo sempre foi a desigualdade disfarçada de natureza.
Na próxima semana vamos conversar sobre porque para nós, mulheres, é difícil tomar uma decisão e agir. Se este artigo tocou você, guarde e releia quando o medo bater forte. E compartilhe com outra mulher que também precisa saber. E siga @psicofatimabaroni para mais conteúdos sobre autoestima e relacionamentos.
Até a próxima.

Fátima Sueli Baroni Tonezer é psicóloga, formada em Psicologia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Sua maior paixão é estudar a psique humana. Atende na DDL – Clínica e Treinamentos – (45) 9 9917-1755