O Presente
Fátima Baroni Tonezer

O cansaço de nunca chegar a tempo

calendar_month 30 de março de 2026
5 min de leitura

A exaustão da pressa constante

Tem uma pergunta que eu gostaria de te fazer: quando foi a última vez que você sentiu que estava no seu próprio ritmo? Não correndo atrás de algo, não se sentindo atrasada, não calculando mentalmente quanto tempo ainda tem para fazer acontecer aquilo que “deveria” já ter acontecido. Quando foi a última vez que você simplesmente foi, sem pressa?

Se você demorou para responder, você não está sozinha. A maioria de nós, mulheres, vive em um estado permanente de urgência. Não a urgência saudável de quem está animada com um projeto, mas a urgência tóxica de quem sente que o chão está sempre prestes a desabar. É aquela sensação de estar constantemente atrasada para a própria vida. E isso cansa. Cansa de um jeito profundo, que nenhuma noite de sono resolve.

Porque não é só o cansaço físico de fazer mil coisas ao mesmo tempo, embora esse também exista e seja brutal. É o cansaço emocional de viver acelerada por dentro. De acordar aos 32 anos e pensar “já tenho 32” em vez de “ainda tenho 32”. De olhar para a colega que acabou de anunciar a gravidez e sentir, junto com a alegria genuína, um aperto de ansiedade. De recusar um convite para viajar sozinha porque “precisa focar em conhecer alguém”. De aceitar relacionamentos mornos porque “pelo menos é alguém, e o tempo está passando”.

A PRESSA NOS FAZ TOMAR DECISÕES RUINS

Decisões que não tomaríamos se tivéssemos a sensação de que há tempo, de que podemos esperar, escolher, experimentar, errar e recomeçar. Mas quando você sente que o relógio está correndo, qualquer coisa começa a parecer melhor do que nada. Qualquer relacionamento parece melhor do que estar solteira “nessa idade”. Qualquer emprego parece melhor do que “perder mais tempo” buscando o que realmente quer.

E assim vamos fazendo concessões. Pequenas traições a nós mesmas, uma atrás da outra. “Por enquanto serve.” “Depois eu penso nisso.” “Não dá para ser exigente demais.” Como se exigir respeito, compatibilidade, felicidade fosse um luxo que só mulheres jovens podem se dar. E que você perdeu esse tempo. A exaustão também vem de viver em múltiplas linhas do tempo ao mesmo tempo. Você precisa ser jovem para ser desejável, mas madura para ser respeitada. Precisa construir carreira rápido, mas não tão rápido que “esqueça” de namorar. Precisa estar pronta para ser mãe, mas não antes de estar financeiramente estável, o que, convenhamos, na realidade econômica atual, é cada vez mais difícil. Você precisa ser tudo, em todos os momentos certos, e esses momentos nunca coincidem.

É viver com a sensação permanente de estar falhando. Porque se você escolhe focar na carreira, alguém vai lembrar dos filhos que você “ainda não teve”. Se você escolhe a maternidade, alguém vai questionar a carreira que você “deixou de lado”. Se você escolhe estar solteira, é porque “não se esforçou o suficiente”. Se você está em um relacionamento que não te faz feliz, é porque você “escolheu mal, apressada demais”.

NÃO TEM COMO GANHAR ESSE JOGO!

E o pior: a exaustão é invisível. Ninguém vê. As pessoas veem a mulher que “tem tudo sob controle”, que está “correndo atrás”, que é “esforçada”. Não veem a mulher que chora no chuveiro porque está cansada de sentir que nunca é suficiente. Que está cansada de correr. Que está cansada de ter medo do tempo.

Essa exaustão se manifesta de formas silenciosas. É a ansiedade que não tem um motivo claro, mas está sempre ali, latente. É a dificuldade de aproveitar o presente porque você está sempre calculando o futuro. É a sensação de que você está assistindo a própria vida passar, mas não está realmente vivendo, está cumprindo etapas, batendo metas invisíveis, tentando chegar a tempo em um destino que ninguém definiu direito.

E talvez o mais cruel seja perceber que, mesmo quando você “consegue”: casa, filhos, carreira, a pressa não para. Porque agora você precisa ser a mãe perfeita, a profissional impecável, a esposa presente, tudo ao mesmo tempo, tudo com urgência. A sensação de estar atrasada apenas muda de endereço, mas nunca vai embora.

Eu queria poder te dizer que existe uma solução fácil, um botão de desligar essa urgência interna. Mas não existe. Porque ela foi programada em nós desde muito cedo, e está reforçada em cada mensagem que recebemos, em cada olhar de pena, em cada “e aí, quando vai ser?”. Mas existe uma brecha. E ela se chama percepção.

Quando você percebe que essa pressa não é sua, que foi colocada em você, algo começa a se romper. Você não elimina a pressão externa, mas começa a questionar a interna. Começa a perguntar: “Estou realmente atrasada? Ou estou apenas fora de um cronograma que nunca fez sentido para mim?”.

É nessa fresta que a gente respira. É aí que começamos, devagar, a nos dar permissão para existir no nosso tempo. Para fazer escolhas não porque estamos desesperadas, mas porque realmente queremos. Para entender que viver apressada não é viver, é apenas sobreviver a uma corrida que ninguém deveria ter que correr. E quando paramos de correr, mesmo que por um momento, percebemos algo libertador: talvez nunca tenha sido sobre chegar a tempo. Talvez sempre tenha sido sobre ter permissão para chegar quando pudermos, do jeito que conseguirmos, ou até escolher não chegar, e ainda assim estar inteira, válida, suficiente.

Na próxima semana vou mostrar o outro lado dessa pressa que recaí sobre  nós.   Se este artigo tocou você, guarde e releia quando o cansaço bater forte. E compartilhe com outra mulher que também precisa saber. E siga @psicofatimabaroni para mais conteúdos sobre autoestima e relacionamentos.

Até a próxima.

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Fátima Sueli Baroni Tonezer é psicóloga, formada em Psicologia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Sua maior paixão é estudar a psique humana. Atende na DDL – Clínica e Treinamentos – (45) 9 9917-1755

 
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